Um mês antes da festa, olhando a escalação fechada, bateu uma paranóia de esse ano ter misturado coisa demais. O pop do Boss in Drama com o terror do Apavoramento, os agitados Os Ritmos Digitais e o show calmo do LETTUCE.
Sem falar que o Cine Glória é tão novo que as pessoas mal sabem onde fica. Ou não desconfiam que embaixo da cabeça do Getúlio, na antiga praça do Russel existe um espaço subterrâneo, com cinema e bar. Pra muita gente a ilustração da filipeta (feita pela Arterial) só deve ter feito sentido uma vez lá.
Porém bastou lembrar que é justamente a mistura o sistema nervoso central do URBe. “Tem regra não, lesque”, diria o poeta. É um saite sobre qualquer coisa que seja interessante, e disso a festa estava abarrotada.
E exatametne por isso a festa deu muito certo, sem dúvidas a melhor edição até aqui. Mais de 500 pessoas passaram pela festa e, com a casa lotada, as três horas da manhã ainda havia uma fila gigante de pessoas aguardando, no esquema sai-um-entra-um.
Foi uma pena ver tantos amigos e colaboradores ficarem de fora. Quem esteve do lado de dentro viu uma bela festa.

A instalação da L’Phant
Se tudo deu certo no final, o começo foi caótico. Um festival de lambanças quase botou tudo a perder. A passagem de som estava marcada para as 21h, mas as 21h40 ainda havia uma sessão rolando no cinema, o que atrasou tudo.
Fosse só esse o problema, tudo bem. O lance foi que as três listas de equipamento solicitadas pela atração enviada com antecedência para produção da Matriz (responsável pela casa) foram solenemente ignoradas. Faltando uma hora pra hora marcada pra festa começar, não tinha sub-woofer ou mesmo cabos para ligar os equipamentos na casa!
Por sorte, se ninguém trabalha no escritório, a galera do pesado deu um gás absurdo e conseguimos colocar tudo em pé, minimizando o atraso para 40 minutos — o que é pésssimo e pelo o qual peço desculpas.
Fica o MUITO obrigado ao Pedro Seiler (que esse ano produziu a festa comigo), João Brasil emprestando equipamentos, a Ana e ao Leandro (da Matriz), ao Flavio (chamado na última hora pra resolver galhos), a rapaziada que montou o som e aos funcionários do CIne Glória. Vocês salvaram a festa.
E chega de pitanga que eu prometi que só escreveria um parágrafo sobre isso e já passei da conta.

Projeção da L’Phante na nuca do Getúlio
Montada na entrada, do lado de fora, a exposição da L’Phante pode ser visitada até por aqueles que não conseguiram entrar na festa. Antonio Bokel e Peu Mello montaram uma instalação, composta por um casinha de madeira repleta de trabalhos de novos artistas e uma projeção de fotos.
O espaço fez sucesso e ficou cheio a noite toda. Enquanto em Londres a equipe de remoção de pichações tem aula para reconhecer um Banksy e não fazer besteira, por aqui a Guarda Municipal não entendeu o espírito da coisa e ameaçou remover o “barraco” algumas vezes. Conquistar o respeito e entendimento dos trabalhos de novos artistas é um dos principais objetivos da L’Phante.
A casinha é um aperitivo do que vem por aí. O saite está no ar, a revista impressa é o próximo passo, finalizando com uma galeria para poder expor os trabalhos de maneira permanente.
Lettuce
Marcado para as 23h, o show do LETTUCE começou pouco depois da meia-noite. A princípio o horário preocupou, pois as músicas da banda são calmas e a apresentação no cinema, com o público assistindo sentado. Pra mim, depois de tanta confusão, foi até bom dar uma parada pra respirar.
A carismática Letícia Novaes e parceiro e namorado Lucas Vasconcellos, acompanhados por uma boa banda, resolveram a questão. A decoração com luzes e as trocas de olhares e carícias dos dois no palco foram dando o clima.

LETTUCE
O LETTUCE é uma declaração de amor do casal feita em cima de um palco. Performática, Letícia levou a platéia no bico, lendo seus poemas, interagindo com o divertido telão, apagando as luzes e atuando em frente a uma luz negra.
Deu gosto ver a Letícia tão a vontade . Seus muitos projetos anteriores não refletiam sua criatividade com exatidão. Tentando fazer letras de uma maneira formal, as loucuras escritas e postadas em seu fotolog continuavam melhor que as bandas. Essa equação começa a ser solucionada com o LETTUCE.
Os Ritmos Digitais
Acabado o show, o trio responsável pela festa Os Ritmos Digitais abriu a pista e imediatamente o lugar começou a sacudir. Variando entre 20 e 22 anos, os rapazes tem feito os sets mais bacana que tenho escutado pelo Rio em bastante tempo.
Sem se prender a nenhum gênero, tocam de baile funk a disco music, de remixes da vez a clássicos da música eletrônica — o que não exclusividade deles. O diferencial aqui, como em tudo que presta, é o bom gosto e a capacidade de contextualizar as músicas sem que fique parecendo um balaio de gato.

Milos, Salim e Yugo: Os Ritmos Digitais
É característica dessa geração, que já cresceu na internet. Tem gente que chama de geração DDA, prefiro ver como pessoas que tem capacidade de enxergar em 360 graus. Gente boas demais, Millos Kaiser, Rafael Salim e Yugo são a ponta de uma turma que inclui cineastas, fotógrafos e designers. Todos começando, sim, mas bastante promissores.
Com a pista do jeito que ia, deu trabalho tirar os três dos toca-discos. Vinda de longe, a atração seguinte estava seca pra tocar e já montava os equipamentos.
Boss in Drama
O paranaense Péricles Martins vem chamando atenção com suas produções pop há algum tempo. Recentemente foi citado por Justin Timberlake em seu blogue, com direito até a vídeo do hit “My Favourite Song”. O momento é do Boss in Drama.

Boss in Drama: a pista pega fogo
Péricles já havia tocado por aqui duas vezes, ambas no Dama de Ferro, uma como DJ e outra com o rascunho do seu projeto ao vivo. Essa foi a primeira apresentação oficial do Boss in Drama no Rio e, como pedia a ocasião, ele veio com tudo.
Além do laptop e dos controladores Midi, Péricles canta ao vivo, toca baixo e o também o zaralho, jogando confete, spray de espuma, estourando serpentinas, acendendo velas faíscantes e passando boa parte do set dançando no meio da pista.
O som funkeado, dançante e pop agradou em cheio, sobretudo as meninas, soltando as cinturinhas. Devido as mudanças de horário, coube a mim a ingrata tarefa de tocar em seguida.
O aniversário do URBe tem um elemento mágico, que faz com que tudo dê certo. Como tenho tocado mais com os parceiros da CALZONE na própria festa ou em eventos com dois ou três deles junto, fazia tempo que não tocava tanto tempo.
Ando meio cansado desses sets de revezamento, porque não dá tempo de evoluir muito. Dessa vez, com tempo, lembrei inclusive que sei mixar. Há bastante tempo não saia das carrapetas tão satisfeito. Como em uma hora ninguém veio pedir nenhuma música, imagino que a pista se agradou também.
Apavoramento Sound System
O gran finale da noite ficou por conta do Apavoramento Sound System, parceiros de longa data e sempre presentes nas celebrações do saite. Integrantes do ASS já tocaram com seus diversos projetos paralelos em várias festas.
Dessa vez eles vieram com o projeto oficial, o live mais aterrorizante do planeta. Só faltou o DJ Nepal, tocando em outra festa, mas fora ele, o ASS veio com tudo: dançarinas, MC, telão, o kit completo.

Blunt e John Woo aka Juan Wooles
Infelizmente, o ASS foi o mais prejudicado com os problemas de produção da festa. Tocando dentro do cinema sem um PA de apoio decente, o som não saiu com a pressão de costume, e também não estava sendo reproduzido na pista de dança.
Isso atrapalhou um pouco o começo da apresentação, mas rapidamente as pessoas perceberam que era pra entrar na sala e o baile começou.
Foi uma espécie de ensaio aberto do novo show do grupo. De dentro da cabine de projeção, John Woo e Blunt comandavam o telão e os graves, enquanto no palco o MC Neurose e as dançarinas faziam a frente, interagindo com a platéia.
O set foi curto (e encurtado pelos próprios), então logo depois a festa foi entregue novametne aos Ritmos Digitias. As 4 e blau eles começaram tudo outra vez, enchendo a pista e dando continuidade a festa, que foi até, veja só que emblemático, as 6h.

Isabel entrevista Woo
Pra quem perdeu, há ainda uma chance de ao menos ver como foi. A equipe do programa “Bastidores” do Multishow, apresentado pela Isabel Wilker, passou por lá pra fazer uma matéria, entrevistando os artistas e contando um pouco da história da festa. Quando for ao ar eu aviso.
Do lado de cá, em meio a correria e diversão, tirei poucas fotos e, obedecendo ao ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”, mais uma vez não produzi um vídeo decente da festa. Seis festas, sei lá quantas atrações e pouquíssimos registros oficiais. Péssima visão comercial…
Tudo certo, o intuito não é mesmo esse. Quem estava lá curtiu, vai lembrar e contar para os amigos. Como sabemos, o que vale é o boca-a-boca. E ano que vem tem mais.
Copa Jam Band recebe Kassin
fotos e vídeo: URBeTV e URBe Fotos
Samba jazz, Copacabana, um hotel glamuroso… Os bons tempos estão de volta.
Na última quarta-feira, tarde da noite no BB Lanches, o baixista Alberto Continentino contava que estava vindo do Bar do Copa, novo bar do hotel Copacabana Palace, onde está tocando duas vezes por semana com a Copa Jam Band, completa por Marco Tommaso (piano), Widor Santiago (sax) e Renato Massa (bateria).
O programa sensacional tem apenas um porém: os proibitivos R$ 120 cobrados de entrada (sem direito a nenhuma bebida). Inviável.
Apesar disso, alguns detalhes da história daquela noite contados por Alberto aguçaram a busca por uma entrada para esse universo paralelo, ao mesmo tempo tão perto e tão distante.
Toda semana a Copa Jam Band recebe convidados. Na primeira semana foi Thalma de Freitas e naquela noite havia sido Kassin, com repeteco no dia seguinte. Nas próximas semanas participam Domenico Lancelotti e Moreno Veloso. É o +2 parcelado.
Alberto contou que Kassin tinha aparecido na beca, de gel e cabelo pro lado, sapato branco, blusa de botão e calça, fazendo papel de crooner e tocando guitarra. Só a descrição da cena dava vontade de rir. Além da sonzeira prometida, a temporada dava pinta de se tornar histórica.
Na noite seguinte, resolvido o empecilho da entrada, tudo se repetiu. O Bar do Copa, com seus espelhos e jaulas, cumpre tudo que se espera de um bar de hotel. O público misturava amigos dos músicos, hóspedes batucando fora do tempo nas mesinhas e membros da equipe do Kiss com companhias locais (enquanto Gene Simmons jantava na pérgula, do lado de fora).
A noite é dividida em dois atos, com um intervalo de uma hora entre eles. Em ambos o quarteto inicia os trabalhos tocando standards em levada samba jazz. Passado tantos anos desde a revolução do Beco das Garrafas, hoje isso soa “tradicional”.
O repeterório cumpre o papel de oferecer o que muitos visitante buscam — e raramente encontram — quando vem ao Brasil, como um turista em Cuba procurando o som do Buena Vista Social Club ou roots reggae em Kingston.
Ainda assim, há algo no ar, como se o Copa Jam Band buscasse quebrar a sisudez relacionada a bossa nova, ao samba jazz e a toda essa linhagem musical, por vezes levada a sério demais, canonizada de uma maneira talvez não planejada pelos próprios músicos protagonistas.
A maneira encontrada para realizar essa quebra foi a escolha dos convidados, apostando que eles não fariam cerimônia e ajudariam a descontrair o ambiente.
Assim que foi chamado, Kassin ligou sua guitarra, incluindo alguns pedais e foi emendando a sua “Esquecido”, “Meio Desligado” (Mutantes) e uma inédita, um bolero sobre a falta de potássio.
No final, convidou Thalma de Freitas pra cantar “Tranquilo” e mais uma inédita, parceria dela com João Donato, chamada “Enquanto a gente namora”.
Comportado e comedido, Kassin terminou sua apresentação sob aplausos timídos, como pedia a situação. Por uns instantes o bar voltou ao volume normal, após a jam ter se tranformado num show.
Rapidamente um DJ entrou em ação, pra garantir que o bar não esvaziasse. Tascou “Finally” (its happening to me…), da CeCe Peniston, e a noite continuou.
O que quer que tenha ocorrido a partir dali ninguém sabe, ninguém viu. O que acontece em Copacabana, morre em Copacabana.

Radiohead
fotos e vídeos: URBe
Os deuses da músicas ouviram nossas preces e operaram um milagre na Apoteose. O show do Radiohead teve um som perfeito, como nunca se viu naquele lugar. O que um bom técnico de som não é capaz de fazer…
Thom Yorke não passou, segundo algumas fontes, duas horas fazendo aquecimento vocal em vão. Era indispensável que fosse assim para que as delicadas músicas do excelente “In rainbow” que ocupam boa parte do repertório soassem tão boas quanto aparecem no disco.
Infelizmente, o show perfeito em todos aspectos técnicos (a parte gringa da equação) contrasta com a produção capenga a que estamos acostumados (a parte brasileira).
Filas quilométricas para o banheiro, a impossibilidade de pegar bebidas com tranquilidade e a truculência dos seguranças justificam a percepção do público médio (aquele que se precisa conquistar para vender 35 mil ingressos) de que o programa é uma furada.
Ouvir um “vai se fuder” e outros poemas durante um show que custou a bagatela de R$200 (x2) só por ter perguntado se o armário iria ficar mesmo parado na minha frente bloqueando a visão não é uma furada, é um total desrespeito mesmo. Se a produção se interessar — o que eu duvido — anotei o número da camiseta do sujeito.
Los Hermanos, “Todo carnaval tem seu fim”
vídeo: marceloguy (enquanto o do URBe não sobe)
Segunda atração mais esperada da noite, ou a principal para muitos dos que enfrentaram a fila desde cedo para garantir um lugar no gargarejo, o Los Hermanos fez seu primeiro show em dois anos para uma Apoteose ainda vazia.
Contratados a peso de outro, a missão dos Los Hermanos era esgotar os ingressos que teimavam em não sair das bilheterias. Falharam duas vezes: as entradas não esgotaram e o aguardado show foi frio, com a banda desentrosada no palco, mesmo com muitos fãs fazendo o tradicional coral.
A única novidade foi “Cher Antoine”, tocada ao vivo pela primeira vez. De resto, foi abaixo da expectativa (que, sim, eram altas demais), com o show sendo muito prejudicado pela má qualidade de som.
Kraftwerk, “Aero Dynamik”
Espremido entre duas bandas cultuadas como poucas, a reação ao público Kraftwerk era a incógnita da noite. A música eletrônica totalmente sintética foi bem recebida pela turma mais acostumada as guitarras.
A apresentação tem toda a elegância, eficiência e simplicidade que se espera dos alemães. Tem quem diga que a cada turnê o show cai um pouquinho, devido a substituição dos teclados por laptops e, provavelmente, pelo fato de cada vez menos integrantes originais façam parte do grupo, restando apenas um.
Seja como for, toda vez que se assiste ao Kraftwerk o embasbacamento é o mesmo. É como se eles tivessem apertado e girado todos os botões de sintetizadores possíveis e imagináveis antes de todo o mundo.
Você escuta “Trans Europe Express” e pensa “pô, parece baile funk”, ouve “Tour de France” e se questiona como o povo do trance conseguiu estragar e desgastar tantos timbres bonitos, olha pro telão e vê de onde o Daft Punk ou Etienne de Crecy tiraram algumas de suas idéias.
O show curto incluiu as músicas mais conhecidas, como “Radioactivity”, “Autobahn” e “Musique non stop”. Faltou mesmo “Pocket calculator”.
O Kraftwerk serve como matriz para boa parte do que se ouve em música eletrônica hoje, sem soar velho ou antiquado, como se mesmo depois de gravadas essas músicas continuassem sempre a olhar pra frente.
No intervalo antes do início do show do Radiohead, Maurício Valladares fez o que pode ter sido o set de dub com mais ouvintes da história dessa cidade. Certamente Jonny Greenwood, guitarrista/tecladista do Radiohead e conhecido dubhead, aprovou a seleção.
Radiohead, “Idioteque”
O Radiohead entrou em cena com apenas 10 minutos de atraso em relação ao horário divulgado, garantindo uma noite tranquila para todos que dali ainda teriam que voltar para casa. Thom Yorke já chegou apresentando o Radiohead em português.
Nos dias anteriores ao show comentou-se bastante sobre o show no México que, pelo que se sabe, deixou a banda impressionada. Como bom brasileiro, logo pareceu que o troço iria se tornar uma espécie de competição, para decidir o público mais quente.
Logo na abertura, com “15 step”, com a Apoteose bem mais cheia, deu pra perceber que o público era respeitoso com a banda. Cantou-se todas a músicas, mas não aos berros. Bateu-se palmas, mas sem estalar alto as mãos. Os desatentos conversaram durante as baladas (ah, mas como não…), porém menos do que se esperava.
A relação beirava a cerimônia, ainda que os integrantes do Radiohead chamassem o público, como não é do costume deles. Era como se depois de tanta espera, todos quisessem guardar aquelas notas na memória e os próprios gritos fossem um obstáculo. As excessões foram os coros mais fortes em “Karma Police”, “No Surprises” e “Paranoid Android”.
Talvez o Radiohead tenha estranhado a calma da platéia, talvez tenham ficado mesmo decepcionados com o público carioca, conhecido pela empolgação. Sendo esse o caso, provavelmente eles jamais saberão o quanto esse pequeno cuidado dos fãs fala da admiração pela banda.
Radiohead: o telão
Foi uma beleza poder ouvir em detalhes as experimentações de Johnny Greenwood quando se afasta da guitarra e vai mexer nos pedais e nos teclados. As interferências de rádios locais que ele sintoniza durante o começo de “National Anthem” deixaram muita gente sem entender de onde vinha tanto português.
Já tendo visto outros dois shows do Radiohead ano passado, dessa vez resolvi me afastar do palco na parte final, para poder apreciar o cenário de longe. Bom, por isso e porque as costas já estava pedindo arrego mesmo.
Os telões laterais e do fundo do palco mostram a banda de tantas posições que daqui a pouco vai faltar ângulo pra filmar de maneira diferentes. Saturando cores ou fazendo meias fusões, os efeitos aplicados nas imagens são sempre simples e extremamente funcionais. Porque bom gosto, como se sabe, não vem instalado no seu Mac.
Visto de longe, do alto da arquibancada, o cenário ganhava uma moldura bem carioca. A direita brilhava o Cristo Redentor e a esquerda o Morro da Coroa, com seu luminoso “Coroa paz” saudando a platéia. Pena que a banda não teve essa visão, pois diz tanto da cidade.
Dessa distância, os efeitos luminosos do palco ganham outros contornos, assumindo formas imperceptíveis de muito perto. Conversando com Mateus Araújo, ele levantou a hipótese de que durante “Everything in it’s right place” um texto fica correndo pelo palco, em letras gigantescas. Conhecendo a banda, faria sentido. Fica aí mais um enigma para ser desvendado.
Como um presente para platéia, uma demonstração de carinho, o Radiohead encerrou o show com “Creep”, seu primeiro grande sucesso e música que eles raramente tocam.
Foram 25 músicas no total, ainda assim ficou faltando coisa. “Fake plastic trees” e “High and dry” para os fãs de novela, e “Climbing up the walls”, tocada na passagem de som.
“Bom pra caralho”, como disse a banda em bom português ao final do show. Foi mesmo.
–
As músicas:
“15 step”
“Airbag”
“There There”
“All I Need”
“Karma Police”
“Nude”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“The National Anthem”
“The Gloaming”
“Faust Arp”
“No Surprises”
“Jigsaw Falling Into Place”
“Idioteque”
“I Might Be Wrong”
“Street Spirit (Fade Out)”
“Bodysnatchers”
“How To Disappear Completely”
Bis
“Videotape”
“Paranoid Android”
“House of Cards”
“Just”
“Everything In It’s Right Place”
Tris
“You And Whose Army?”
“Reckoner”
“Creep”
* Dá pra assistir boa parte da apresentaçãona página do cybertechno, um doido que tranformou em regra pessoal filmar na íntegra e colocar no YouTube todos os shows que vai (nesse ficaram faltando algumas).
Little Joy, “The next time around”
(em 00:40, no meio da tela, Camelo cantando)
vídeo e fotos: URBe
Mais uma sexta-feira, mais uma ida a Lapa. Como ia dizendo outro dia, o bairro anda a um zilhão por hora. Dessa vez a atração principal da noite era o Circo Voador, onde tocou o Little Joy, “projeto paralelo de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (The Strokes)”, aparente sobrenome da banda.
É o típico evento que no Rio vira um programa, a famosa boa da noite. Na platéia, tinha de tudo; de indies conhecedores de cada integrante aos perdidos; de quem só ouviu falar do LJ a gente gritando “gostoso” para Amarante. É, os fãs do Los Hermanos não são mole não.
Em muitos aspectos a histeria e empolgação do show realmente lembrou as apresentações dos barbudos. Sem falar que músicas como “Keep me in mind” (uma variação acelerada de “O Vento”?) bem poderiam ter saído do repertório do LH.
Na festinha após o show, o baixista gente boa Todd Dahlhoff (Dead Trees e parte do projeto paralelo de outro Strokes, Albert Hammond Jr.) contou que a banda estava preparada para isso, pois Fabrizio já havia alertado que o galego (apelido de Amarante entre o LJ) era grande no Brasil.

Atenção para o horário do início do show. No Circo. Inacreditável!
O que não foi nada, nada comum, foi o respeito aos horários marcado para os shows (ALELUIA!). As 23h30 o Cidadão Instigado já encerrava sua apresentação para os poucos que acreditaram e chegaram na hora. Precisamente as 00h27, o Little Joy pisava o palco, numa cena quase impossível de acreditar em se tratando de Rio ou de Circo Voador.
Antes disso, no momento vergonha alheia da noite, um rapaz anunciou ao microfone que um DVD estaria sendo gravado, quem não concordasse em aparecer que fosse “lá para atrás”, fechando com um constrangedor “é Little Joy no bagulhôu!”. Foi merecidamente vaiado.
Muita gente perdeu o show, basicamente por três motivos. Uns bobeaream e ficaram sem ingresso; outros chegaram atrasado por conta do trânsito infernal na Lapa e arredores (embora alguns culpassem a pontualidade, o que não deixa de ser irônico); e o pior caso: gente que comprou ingresso, chegou a tempo mas não conseguiu ver o show por conta da indesculpável super lotação da casa. Uma mancada e tanto, numa noite de acertos.
Feliz, depois de tanto tempo sem tocar no Brasil, Amarante estava visivelmente contente e não cansava de agradecer, cumprimentar rostos conhecidos na platéia e dizer como era bom estar de volta em casa.
No entanto, era Fabrizio Moretti, aparentemente doidaralhaço, quem ganhava os holofotes. Com algumas frases desconexas, danças bizarras e declarações populistas como “quem está muito feliz? Eu estou muito feliz, sabe porquê? Por causa de vocês!”, divertiu o público.


Sergio Mendes vs Noah Georgeson (foto: Carlie Armstrong)
O resto da banda estava mais na deles. O guitarrista (e produtor do disco) Noah Georgeson chamava mais atenção pela semelhança física com Sergio Mendes, apontada por João Brasil (perguntado, Noah disse que nunca tinha escutado isso antes, sabe-se lá como), e a vocalista Binki Shapiro, apagadinha, protagonizou os momentos fofos. O baterista Matt Romano se destacava pela técnica e pela precisão monstruosa.
Brand new Anna Julia?
A arquibancada estava cheia de amigos de Amarante. O parceiro Camelo, o produtor Kassin, dois terços do Do Amor, Pedro e Jonas Sá, Nina Becker e Vanessa da Mata cantarolavam as músicas. Nesse contexto brazuca, a música com maior potencial de hit do Little Joy, “Brand new start”, ganhou uma nova perspectiva.
Não tinha notado o quanto a pegada, as referências e até a estrutura da canção do Amarante — apesar do andamento bem mais lento e arranjo suave — se assemelha ao grande sucesso do LH, “Anna Júlia”, de Camelo. O “uô uô uôu” que encerra uma e o “oh, no” que fecha a outra escancaram as semelhanças.
Assim como o disco, o show foi bem curto. Tirando uma versão bem apropriada de “This time tomorrow”, do Kinks (”música que todos nós gostamos muito, explicou Amarante), outra de “Walking back to hapiness”, da Helen Shapiro, e uma música nova do LJ, nada foi acrescentado.
Moretti puxa o coro do público: “Último romance” (Los Hermanos)
Show encerrado, até então não havia tocado nenhuma música do Los Hermanos. Isso até Fabrizio ir ao microfone e começar a cantar “Último romance”, iniciando um coro gigantesco, que um encabulado Amarante acertadamente decidiu apenas ouvir e não acompanhar. Fabrizio ria sem parar.
Com esse final, é de se imaginar que o show do Circo tenha sido o ápice da turnê. Os intengrantes disseram que Porto Alegre e Belo Horizonte também foram memoráveis. Apenas São Paulo decepcionou, pela recepção muito fria.
Como suas atividades em seus projetos principais demanda muito tempo dos integrantes (Fabrizio entra em estúdio com o Stokes no mesmo dia que chega de volta aos EUA), a gravação de um DVD na penúltimo data da extensa turnê ( que se encerrará em Recife e viu a banda atravessar os EUA e passear pela Europa tocando em pequenos clubes) dava pinta de final de festa.
O baixista, Todd, afirmou que não é nada disso. A banda continua e tem até músicas suficientes para um segundo disco, que deve vir logo, logo.
Enquanto o disco não vem e a banda não define seus destino, resta a internet. Menos de 12 horas depois, o show estava inteiro no YouTube, filmados de diversos ângulos. Só que ao vivo, é claro, é muito melhor.
URBe TV: video-entrevista com Kele Okereke e fotos
O Bloc Party tem a fama de fazer shows mornos. Foi assim no Coachella, disseram que foi assim em São Paulo e tinha tudo pra ser assim no Rio.
Só que o Rio não é conhecido do jeito que é a toa. Não é por acaso que trocentos bandas escolhem a cidade para os seus DVDs “live in Rio”.
As baixas expectativas e despretensão também devem ter ajudado para o sucesso da noite, assim como a boa organização.
Em plena segunda-feira, a combinação de ingressos a preços justos (R$60 doando um quilo de alimento, o que é uma iniciativa bacana), pontualidade (o show marcado para as 22h começou as 23h, praticamente final de tarde para os padrões carioca) e som bem passado foi infalível.
Dependendo do que se espera de um show do Bloc Party, pode ou não ser uma decepção. Tocando num lugar pequeno e apenas para o seu público, os ingleseses mostraram que dão conta. Quem foi apenas para ouvir o que eles tinham pra apresentar, se divertiu bastante.
As músicas do novo disco, “Intimacy”, ajudam bastante a dinâmica do show, com momentos de experimentação com equipamentos e eletronices que distanciam o Bloc Party do seus contemporâneos da tal cena “rock dançante”.

Kele atende os fãs após o show
O show, que terminou com um coro de “Rio! Rio! Rio!”, foi uma tremenda dose de auto-estima para cidade. Bom, pelo menos para quem estava lá.
* já botaram o show INTEIRO no YouTube, filmado da beira do palco.
O finalzinho de “Your love” (versão da música de
Frankie Knuckles que não entrou no disco), com o
URBe TV: vocalista no meio da platéia, seguida por “Skeleton boy”
Ficou faltando o vídeo do show de saideira de Londres, dos gente boas do Friendly Fires, no Kings College (KCLSU).
Dos quatro que vi, esse foi o primeiro em que a banda era a atração principal, donos da noite. Os outros três foram na festa da revista Vice (antes do Black Kids), no NME Awards (antes do Simian Mobile Disco) e na Pure Groove (um show pequeno, de lançamento do disco, numa loja).
Vendo a banda em seu ambiente, tocando para o seu público, algo que havia passado despercebido nas outras apresentações ficou claro: a presença de palco expansiva do vocalista Ed MacFarlane. Como um Mick Jagger nerd, Ed rebola na frente do palco na abertura, com “Photobooth”, se requebra e faz caras para as meninas, que gritam de alegria.
É como se estivesse apenas esperando a banda crescer o suficiente e lotar arenas para sua postura fazer sentido. A julgar pela chuva de boas resenhas e potencial pop do disco de estréia, o Friendly Fires pode chegar lá.
Como sempre, os integrantes e empresários pedem pelo amor de Deus que alguém os leve ao Brasil. E se você acha que é papo pra agradar, dá uma olhada no encerramento do show, com “Jump in the pool”, igualzinho ao que fizeram no Reading Festival.
“Jump in the pool”
URBe TV: Marcelo Camelo, “Doce solidão”
Sábado o TIM Fest tirou o a virilha da lama (porque o pé já tinha sumido lá dentro).
O grande show, em uma noite repleta de grandes shows (Gogol Bordello, Dan Deacon, Sany Pitbull, Neon Neon), foi o de Marcelo Camelo.
Sua estréia, “Sou”, tem sido duramente criticada e ninguém dava nada pela apresentação, mas Camelo cercou-se bem. E saber escalar uma banda é uma grande virtude musical.
Ao contrário do disco, onde a banda de apoio, o Hurtmold, parece andar com o freio de mão puxado, no show eles aceleram sem obstáculos. Ao vivo, as música decolam, ganham peso, nuances e uma pressão que falta nas gravações.
Bom exemplo disso é o momento em que, em vez de apresentar os integrantes individualmente, Marcelo simplesmente senta-se no chão próximo aos pedais de sua guitarra e é engolido pela catarse do septeto paulistano. Não há melhor cartão de visitas para eles.
Porém, há ma boa dose de exagero no balanço bastante positivo (e cego) que os organizadores fazem do evento.
Os problemas de som, embora suavizados, persistiram. O liberou geral dos ingressos (distribuídos aos montes) e a abertura das tendas mesmo para quem não tinha ingresso para o show, lotando o espaço com um público artificial, tumultuaram shows como o do Camelo.
Criou-se um precedente arriscado. Periga ano que vem ninguém comprar ingresso, apostando em uma nova distribuição de entradas quando bater o desespero na produção de ver as tendas vazias. É mais seguro pensar em um formato de festival de verdade (um ingresso para ver tudo) e preços mais em conta.
URBe TV: Gogol Bordello, “Morena tropicana”
Os shows do Gogol Bordello exigem folêgo. Não apenas do elétrico vocalista, Eugene Hütz, mas também do público. Pulando sem parar, o ucraniano e sua banda mantém o show inteiro lá em cima, sem pausas pra respirar. O público foi junto, resultando na única catarse coletiva duradoura do festival. Um show com a cara do Rio, fanfarrão, animado e alegre.
URBe TV: Klaxons, “Two receivers”
Contando com um cavalo na bateria segurando a onda das presepadas dos três homens de frente, Klaxons é uma boa banda, mas falta chão. Músicas como “Gravity’s rainbow”, “Atlantis to Interzone”, “Not over yet” seguram bem a onda, porém de maneira geral, falta dinâmica e melodias, porque depois de um tempo os loops cansam.
Após o show, os integrantes deixaram a Marina da Glória de táxi e acabaram parados numa blitz, onde tiveram bolsos esvaziados, viram fuzis bem de perto e saíram assustados. Que beleza.
URBe TV: Sany Pitbull
O maestro do funk, Sany Pitbull, sacudiu o palco aberto, encerrando o TIM Festival 2008. O cenário estava estranho, mas o Sany passa por cima de qualquer coisa.
Deu gosto ver o DJ feliz e mandando e-mail no dia seguinte amarradão, depois de tanta pancada que tomou esse ano, com a morte da sua empresária.
Sany aproveitou pra mandar o link pra baixar a sua Mixtape 2009 Pós Baile Funk e a lista de músicas:
1- Intro Gabi Conda
2 - Sany Pitbull - “Caraja’s Massacre”
3- Sany Pitbull - “Tambor Roll”
4- Sany Pitbull vs Daft Punk - “Da Funk Around the world”
5- Sany Pitbull vs Teriyaki Boyz - “Tokio Drift Funk”
6- Sany Pitbull - “Faroeste Rmx”
7- Sany Pitbull vs Madonna - “Hung up” (Baile Funk Mix)
8- Sany Pitbull - “Blues’n'Funk”
9- Sany Pitbull - “Arabian Lover Rmx”
10 - Sany Pitbull vs Deep Purple - “Smoke on the water Rmx”
11- Sany Pitbull - “Nightmare”
12- Sany Pitbull vs Daft Punk - “Technologic” (Baile Funk Mix)
13- Sany Pitbull vs Black Sabbath - “Infected” (Olelê Bass Mix)
14- Sany Pitbull feat. Dj Dedé Mandrake - “Tribos”
15- Sany Pitbull - Let your body rock - “Freestyle mix”
16- Sany Pitbull - “That P****”
17- Sany Pitbull - “Monotone” (Baile Funk Mix)
18- Sany Pitbull - “JB Beat”
19- Phabyo Dj - “Jungle Bass” (Carioca Funk Clube Mix)
20- Phabyo Dj - “Eletronic” (Carioca Funk Clube Mix)
21- Sany Pitbull feat. Juninho Carioca - “Beatch Brazil”
URBe TV: Casiokids, entrevista (legendada) + “Togen hule” ao vivo
Esse Casiokids foi uma das melhores coisas que vi esse ano. Em termos de música eletrônica ao vivo, fica lado a lado com o Soulwax. É muito bom ver um show em vez de assistir um sujeito no laptop.
Bati o olho num EP independente deles na na Rough Trade um tempo atrás, achei o nome curioso, mas não comprei na hora. Quando voltei, já tinha acabado. Procurando por links no Rapidshare, Zshare, Hype Machine e Google não achei anda. Sei lá como esses caras fizeram pra esconder as músicas deles on line hoje em dia.
Casiokids - “Fot i hose”
Nem vale a pena tentar definir o som do Casiokids. Tem referências bem diversas, de música africana a eletrônica maximalista. A galera no palco e a quantidade de teclados lembra o Hot Chip; a pegada alucinada de pista o Soulwax; os ruídos eletrônicos o Late of the Pier; o teatro de sombras, as cabeças de papel machê e o monstro vermelho que invade a platéia, o Flaming Lips.
A música da vídeo entrevista que abre o texto é “Togens hule”, mais calminha, logo na abertura do show. O encerramento foi com o coice “Fot i hose”, clica aí em cima e sente a pressão. A verdade é que estava querendo tanto ver esse show que filmei logo a primeira música pra ficar quicando o resto da noite.
Casiokids - “Gront lys i alle ledd”
Casiokids - “Togens hule”
URBe TV: Seun Kuti & Egypt 80
fotos: URBe Fotos
Talvez antes mesmo do aspecto musical, o Lovebox, festival de dois dias organizado pelos integrantes do Groove Armada, se destaca pela comida. Reunindo algumas das melhores barracas do Borough Market, quase vira uma tarde gastronômica.
No domingo, os shows de Sebastien Tellier (divertido como sempre), Roni Size (fora de lugar e com o som sem pressão), Buraka Som Sistema (sacudindo a gringalhada), Operator Please (tocando numa cabana tosca), Goldfrapp (fraquinha e brega que só ela), Flaming Lips (também com som ruim), equilibraram a equação.
Quem fez a diferença mesmo foi Seun Kuti, filho mais novo do criador do afrobeat, Fela Kuti.
A frente do Egypt 80 desde a morte de Fela em 1997, nessa que foi sua última banda, Seun Kuti prova que não é um mero herdeiro aproveitador.
12 dos 16 integrantes são veteranos das longas noitadas comandadas pelo pai no The Shrine, sua própria casa de shows — diários! — em Lagos, na Nigéria. É difícil imaginar que músicos desse nível aceitassem ser comandandos por qualquer um.
O caminho escolhido por Seun é mais próximo do pai e diferente do traçado pelo filho mais velho de Fela, seu meio-irmão Femi Kuti (que tocou na derradeira edição do Free Jazz Festival, em 2000), vez ou outra acusado de amaciar o afrobeat para ouvidos estrangeiros.
É uma encruzilhada sem solução aparente: se a escolha é atualizar os camihos, é chamado de água com açucar, se a opção for dar continuidade, pode-se facilmente ser chamado de oportunista.
Felizmente, isso não está acontecendo com Seun, cujo disco de estréia
“Seun Kuti & Fela’s Egypt 80″ está sendo bastante elogiado.
Além do quê, com a leva de afrobeat brotando nos EUA, através do Antibalas, Nomo, Amayo’s Fu-Arkist-Ra ou Ocote Soul Sounds, nada mais justo que o filho do homem também tenha direito a dar sua contribuição.
Durante o show, lembrei da Nação Zumbi e de como seria injusto se não tivessem tido a chance de continuar sem Chico, um direito muito bem exercido por eles. Teríamos perdido uma bela banda e um dos melhores shows brasileiros.
A relação musical de pai e filho no caso dos Kuti, é bem diferente, por exemplo, da dos Marley. Seun toca com a Egypt 80 desde os 8 anos (Femi também) e assim como o pai, foi para Inglaterra estudar música.
Ele tem carisma, energia e talento próprio de sobra, ainda que a semelhança física com Fela (menor que a de Femi) e o jeito de dançar possam criar uma atmosfera saudosista.
Fela Kuti, no Shrine, no documentário,
obrigatório, “Music is a weapon”.
Abrindo o show com uma música de seu pai, “em respeito”, como Seun mesmo disse, suas próprias músicas não ficam para trás.
As frases dos metais grudam na cabeça já na segunda volta, as levadas de guitarra, simples e funcionais fazem a cama para hipnose, enquanto o baixo e a percussão lá na frente vão empurrando o conjunto. A sonoridade solidifica-se na dança das duas vocalistas de apoio.
Se tem um lugar no Brasil onde seria interessante ver esse show acontecer, seria Salvador, talvez fora do carnaval. Seria curioso ver as reações, do público e da banda. Lucas Santtana, dê um alô sobre o assunto.
Seguindo os politizados passos do pai, letras falam do sofrimento africano e clamam por mudanças. “Quero fazer afrobeat para minha geração. Em vez de ‘levante e lute’, será ‘levante e pense’”, disse em entrevista ao Independent.
É curioso como tanta gente gosta de música politizada, mas poucos gostam de política. Em vez de instigar a consciência, esse tipo de música faz o contrário; como se suprisse a necessidade diária de cada cidadão de se indignar. Como se ouvir um disco bastasse.
Seun Kuti segue lutando para que a música continue sendo uma arma.
URBe TV: The Mars Volta
URBe Fotos
Até você entrar em sintonia com a aparente esquizofrenia que está acontecendo no palco, o show do The Mars Volta é um bocado assustador. Alto, agressivo e confuso.
Não é fácil de digerir a massa sonora, misturando a velocidade do speed metal com divisões de jazz, vocais de Robert Plant com trejeitos de Mick Jagger, ruídos industriais com feedbacks de guitarra, camadas de teclado perfuradas por saxofone, percussão e improvisos quilométricos.
Já haviam dito que Roundhouse, local do show, era uma das melhroes, se não a melhor, casa de Londres. E de fato, é.
Construído dentro de um antigo moinho, o espaço circular (por isso o nome, Roundhouse) oferece uma visão de 180° do palco, possibilitando assistir o show de ângulos normalmente reservados para quem está com uma credencial no peito.
Pena que a programação é muito irregular. Com a demolição do Astoria definida, quem sabe alguns shows não acabam indo parar lá.
Passados alguns minutos, um transe coletivo toma conta da platéia. A sonoridade, quase anti-social, não deixa espaço pra respirar. Uma experiência tão intensa que as pessoas quase não se movem.
Liderados pelo guitarrista Omar Alfredo Rodríguez-Lopez e pelo vocalista Cedric Bixler-Zavala, o septeto pode ir do Hurtmold ao Justice, via rock progressivo, em meio acorde.
Quando a apresentação termina, a banda sai do palco sem dizer uma palavra, como no resto do show. Se o recado era de que se tratava de uma das bandas mais originais em atividade, nem precisava falar nada mesmo.

URBe TV (com excessão do Radiohead) e
URBe Fotos (inclusive as fora de foco)
Como dito anteriormente, todos os caminhos apontavam para Bélgica. O que pode ter faltado foi placas sinalizando melhor as intempéries.
Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:
Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.
Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar — afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.
O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.
Dia 1 - onde os urubús tem asa

Uniforme
Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso — e sem o nome de nenhuma mega corporação intrometida no logo do evento — é um mistério.
Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.
Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.
Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.
A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.
E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Já na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.
Vampire Weekend, “A-Punk”
No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial do quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.
O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem intervalos. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.
Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina.
Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com “C” maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.
Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume.
Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.
Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com “Orange crush” e fechando com “Man on the moon”.
Soulwax, “Robot rock” + “Phantom Pt. II”
De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.
Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro), sob o nome Soulwax Nite Versions ênfase é na eletrônica, tocando seus remixes ao vivo.
Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.
Emendando “Gravity’s rainbow” (Klaxons), “NY Excuse” (deles mesmo, explodindo a tenda), “Robot Rock” (Daft Punk) e “Phantom Pt. II” (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).
Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal.
A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.
Dia 2 - lá vem o sol

Jay-Z
Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda.
No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.
Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.
Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: “99 problems”, “Crazy in love” (Beyoncé), “Umbrella” (Rihanna) e a música da estação, “American boy” (Estelle).
A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.
No palco principal (eita, vai-e-vem…), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem está tão longe assim ainda.
Hot Chip, “Ready for the floor”
A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.
Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.
O show deu uma crescida em “Over and over” e na ótima “Ready for the floor”, ficando curioso na versão de “Nothing compares 2 U”, do Prince, imortalizada por Sinead O’Connor.

Digitalism
Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.
Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do que é o “DJ Ibiza”.
Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a “tendenssa” atual, nem todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. O Digitalism certamente funciona melhor de olhos bem fechados.
Dia 3 - dobradinha histórica

MGMT
Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.
A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.
É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si — o que deveria ser uma boa coisa — a turma impaciente do hype debanda.
O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só “mandar um dance”.
O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.
O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e… Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.
Show bom bagarái. Vamos ver como será recebido no Brasil.
O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal.
No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.
Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa.
Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, “On call”, e lançando um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.

Sigur Rós
Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas.
É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.
Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de “Woman in me”, um musicão) e, hoje, assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.
Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.
Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral.
Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca para aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.
Radiohead, “Climb up the walls”
Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.
A grande “falta de sorte” foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.
A inclusão de “Paranoid android” fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) “In rainbows” foi tocado quase integralmente e “Climb up the walls” surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.
Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que ocasionou um espreme-espreme raro por essas bandas.
Na tentativa de evitar o tumulto no final da apresentação, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.
Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando “Everything in it’s right place”, antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.
Dia 4 - arrancada final

Hercules & Love Affair
Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.
O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.

Mark Ronson
Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos.
A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm… contemporâneo.
Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.
Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre “Toxic” (Britney Spears), “Just” (Radiohead), “Stop me” (The Smiths) e “God put a smile upon your face” (Coldplay).
O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.
O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.
A catarse provocada por “Valerie”, logicamente sem Amy Winehouse nos vocais, prova o contrário.
Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.

Racounteurs
Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de “projeto paralelo do guitarrista Jack White”. O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.
Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada boba, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.

Justice
O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.
Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.
Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de “Genesis”, prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.
O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, que durou uns 20 segundos, mais pra Poison do que pra Metallica.

Beck
Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, “Modern guilt” e alguns de suas melhores canções.
Entre “Loser”, “Devil’s haircut”, “New polution”, “Where it’s at”, o grande momento foi “Everybody’s got to learn sometime”, do The Korgis, que fez parte da trilha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.
Moído, restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.
São e salvo.
Uma passeio pelo Cans Festival
vídeo: URBe TV
O Cans Festival, ou Festival das Latas, uma corruptela com o nome do festival de cinema de Cannes, transformou um túnel de acesso desativado ao antigo terminal do Eurostar (linha de trem que liga Londres a Paris e que atualmente sai de King’s Cross) numa gigantesca galeria de obras feitas utilizando a técnica de estêncil.
Organizado pelo grafiteiro conhecido como Banksy, o espaço exibe diversos trabalhos do próprio, além de artistas convidados de todo o mundo, incluindo os brasileiros Altocontraste, Anda Nahu, Daniel Melim e Izolag. Existe também um espaço onde outros artistas podem acrescentar suas obras a mostra.
Programado para acontecer durante um final de semana apenas, a procura foi tão grande que a visitação ao Cans Festival deve ser extendida por mais seis meses.
URBe TV: Radiohead, “There, there”
URBe Fotos
A estratégia de lançamento de “In rainbows”, com vendas estritamente on line e com o preço dado pelo comprador, foi tão surpreendente que passou-se mais tempo falando disso do que do fato que trata-se de um dos melhores (e mais acessíveis) discos do Radiohead.
Tocando para uma multidão no Victoria Park, na primeira passagem da atual turnê por Londres, o quinteto conseguiu transformar as novas canções em algo ainda melhor, sem deixar quase nenhuma de fora. A abertura foi do Bat for Lashes, bem bom.
O som cristalino que saia das caixas era de chorar. Papo de ouvir os mínimos detalhes, o som dos dedos dedilhando violões ou o piano. É raro ouvir algo tão bem equalizado, principalmente ao ar livre.
Fechado em seu mundo particular, o guitarrista e programador John Greenwood divide-se entre xilofone, teclados, rádios a pilha, arco de um violoncelo e disputa atenção com o dono da banda, o vocalistaThom Yorke.

O show é muito simples e é justamente aí que está o truque.
Das timbragens dos intrumentos a execução das canções — mesmo com as constantes mudanças de formação de palco, indo de guitarras, piano, baixo, bateria e programação para voz e violão de uma música para outra — não tem firula.

O cenário resumia-se a um conjunto de luzes retangulares colodidas, pendurados do alto do palco, com um telão no fundo. Dividido horizontalmente em cinco partes, sempre mostrando detalhes dos integrantes em câmeras fixas. As imagens ganhavam mais tratamentos e diagramações nos telões laterais.
Menos é mais, as vezes dizem por aí.

Talvez a única crítica negativa ao show seja o exagero de marcações de palco para as câmeras funcionarem a contento. Thom Yorke também abusa dos trejeitos, mas a essa altura, já faz parte do espetáculo.
Em seu momento politizado, puxou um coro de “Free Tibet”, sentado ao teclado coberto com uma bandeira da terra dos monges, antes de desembocar “Everything in its right place” (uma mensagem subliminar?) e caminhar rumo ao encerramento, com “Idioteque”.
Com sete discos lançados, mesmo num show de pouco mais de duas horas, sempre falta muita coisa. O que é ótimo, sobram surpresas para as próximas apresentações.
obs: meu futuro vizinho virtual Gustavo Mini, a quem finalmente conheci no mundo real, fala do aspecto “verde” do show no seu Conector.
–
O repertório do show, fora de ordem, segundo a memória de Pedro Seiler:
“15 Step”
“Bodysnatchers”
“All I Need”
“The National Anthem”
“Pyramid Song”
“Nude”
“Arpeggi”
“The Gloaming”
“Dollars and Cents”
“Faust Arp”
“There, There”
“Just”
“Climbing Up The Walls”
“Reckoner”
“Everything In Its Right Place”
“How To Dissappear Completely”
“Jigsaw Falling Into Place”
Bis 1:
“Videotape”
“Airbag”
“Bangers ‘n Mash”
“Planet Telex”
“The Tourist”
Bis 2:
“Cymbal Rush”
“You And Whose Army?”
“Idioteque”
URBe TV: Lykke Li, “Little bit”
Mês passado, Lykke Li passou por Londres fazendo o show de abertura para o Sebastien Tellier. Agora, a sueca reapareceu para uma série de shows só seus.
Não foi apenas a dimensão dos shows ique mudaram. A acolhida calorosa pela imprensa começou a se tranformar em pedradas, sem motivo aparente, além da menina estar começando a se destacar.
De um nome para se prestar atenção para resenhas mornas e músicas espinafradas foi um pulo. O pecado do sucesso, parece, é punido mundo afora.
Tanto a velocidade quanto a voracidade da rede não permitem a um artista flutuar entre esses extremos por muito tempo. Os shows de lançamento do disco em Londres ganharam mais importância. Lykke precisava, novamente, se provar.
URBe TV: El Pero Del Mar
Também da Suécia, o El Perro del Mar ameaçou fazer um show sem graça, que terminou sendo interessante.
As três primeiras músicas enganaram. No formato voz e violão, davam a certeza de mais uma cantora de folk (quantas mais?). Isso até outros músicos chegarem pra tocar piano, baixo, sampler, engrossando o caldo.
A cantora Sarah Assbring, integrante única do El Perro del Mar e que ao vivo tem um timbre lembrando, ainda que de longe, Beth Gibbons (Portishead), colaborou, se arriscando na flauta e no teclado, deixando tudo pronto para a amiga Lykke Li.
URBe TV: Lykke Li, “Can I kick it” (A Tribe Called Quest)
Imagine o susto que a M.I.A. tomaria se um dia acordasse presa no corpo da Britney aos 14 anos, de calcinha e com uma vontade incontrolável de se tornar um chanteuse. Taí uma possível descrição da Lykke Li.
O tema das letras, em boa parte falando de relacionamentos tortos, relembra que a menina tem apenas 22 anos. A voz doce, quase um sussurro, meio infantil, contrasta com a postura no palco, beirando a agressividade. Mesclando com poses ensaiadas com piadas prontas, Lykke vai dominando a platéia.
Antes de “Little bit”, quando fazendo uma brincadeira com a letra, ela pergunta “quem está apaixonado?” e emenda “mas não por mim”, já é tarde demais. As centenas de conterrâneas presentes no show já estão entregues.
Mesmo com as camadas e texturas eletrônicas, ao vivo as músicas do “Youth novels”, o disco de estréia, surgem mais secas e diretas, primas (bem) distantes de uma base produzida por Pharrel Williams.
Quando a aproximação com o universo hip hop começa a se tornar absurda demais, Lykke encerra o show com uma versão de “Can I kick it?”, do grupo de rap A Tribe Called Quest, misturada com “Walk on the wild side” (Lou Reed).
Se ela, mesmo que inconscientemente, estava falando das críticas recebidas recentemente, nem precisava perguntar. É só chutar.
Dublime: Iration Steppas, Lee Perry & Adrian Sherwood e Pole
fotos e vídeo: URBe
A primeira edição da festa Dublime na Fabric trouxe uma escalação em sintonia com um certo documentário.
De Lee Perry a Pole, passando por Don Letts, Congo Natty, Kode 9 e alguns dos principais nomes do dubstep, do jungle e do UK Roots, o evento foi um passeio pela linha evolutiva do dub, do berço jamaicano a improvável vertente alemã.

Iration Steppas
Com três pistas rolando simultaneamente, o esquema era cruel: escolhia-se um nome pra conferir, perdia-se, no mínimo, outras duas coisas muito boas.
Embora não seja uma presença rara em Londres, sendo de Leeds, o Iration Steppas teve prioridade. Tocando na menor pista, com MCs exaltando o time e um grave de amassar o peito, a versão de “Welcome to Jamrock” já valeu o set.


Lee Perry & Adrian Sherwood
Don Letts fez um set pesado pacas, misturando digidubs com roots, transformando num presente o atraso para o início da apresentação do Lee Perry.
Em sua passsagem pelo Brasil, em 2007, acompanhado por uma banda que não era a sua usual, Lee Perry já fez mágica num pé só (o outro estava engessado), imagina acompanhado por Adrian Sherwood.
Além das bases e efeitos caprichados de Adrian, o grande barato da apresentação é que ela dura exatamente o tempo que Lee Perry leva para pintar um de seus quadros, no palco.
Misturando grafite com as pinceladas naïf, características da decoração do seu chamuscado estúdio, a Black Ark, Perry fala sem parar, entre improvisações e trechos de clássicos como “War inna Babylon”, “Curly locks”.
Perry é primeiramente um produtor, não um artista (embora tenha gravado várias músicas), então o ideal seria vê-lo mixando, coisa que ele já não faz mais.
O show é sim morno, mas isso pouco importa quando se está cara a cara com uma lenda da dimensão (dimensões?) de Lee Perry, com um pincel na mão, pintando os braços de quem os esticasse em sua direção.

Pole
Na outra pista, logo na sequência, o Pole tocou com um laptop, mixando e aplicando os efeitos ao vivo, através de uma mesa.
Resvalando no minimal house e mais dançante do que se poderia imaginar pelos discos, o alemão tem mesmo os dois pés no dub, por mais que diga em seu saite que é apenas uma influência.
Com os ouvidos zunindo de tanto grave, a parcela dubstep ficou pra depois.
–
A escalação completa da festa:
Pista 1 - ROOTS
Lee Perry Soundsystem & Adrian Sherwood (LIVE)
Dillinja (Valve Recordings)
Congo Natty aka Rebel MC (LIVE)
Caspa & Rusko (Dub Police), Loefah (DMZ/ Deep Medi)
Don Letts (Dub Cartel Sound System)
Souljazz Soundsystem
MCs Pokes, Warrior Queen & Rod Azlan
Pista 2: TEC
Pole (LIVE) (Scape/Mute)
Sleeparchive (LIVE)
Kode 9 (Hyperdub)
Scuba (Hotflush)
Pinch (Tectonic/Planet Mu)
Appleblim vs Peverlist (Skull Disco/Punch Drunk)
Downshifter (Skud/Hyponik)
MCs Flow Dan & Rogue Star
Pista 3 - POOM
Iration Steppas (Sub Dub)
Moody Boyz (Studio Rockers)
Antisocial (Deep Medi)
Blackdown & Dusk
Earl Gateshead (Trojan Sound System)
Jonny Trunk (Trunk Records)
MGMT, “Electric Feel”
fotos e vídeo: URBe
Sob o som de um delicado dueto de flautas, os integrantes do MGMT entraram em cena, um por um, adicionando seus intrumentos ao arranjo e mostrando que o viria a seguir não seria muito parecido com o disco “Oracular Spetacular”.
Ao longo da noite, as muitas referências de Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, da disco ao folk, do pop a eletrônica, foram se desmachando no palco, até uma se sobrepor a todas as outras: o rock psicodélico
As flautas etéreas se revelaram uma comprida introdução para uma versão mais chapada de “Electric Feel”. A partir daí, foi como se o repertório do disco estivesse sendo tocado de trás pra frente, sempre com mais peso na guitarra. O resto dos hits ficaram guardados para o final.
Vestido com uma túnica colorida e faixa no cabelo, apesar de não escrever as letras, o vocalista Andrew VanWyngarden dá o tom do show. New age, neo-hippie e viajandão.
A lista de ingressos para imprensa e convidados, por exemplo, estava atrelada a uma contribuição de cinco libras para uma instituição de caridade escolhida pela banda.

MGMT
Numa pausa entre as canções, o vocalista VanWyngarden, olhou o Astoria de frente e disse “nunca tocamos num lugar tão grande”. O público parecia tão assustado quanto ele.
Pode ser que o nervosismo, a falta de quilometragem na estrada ou que o som embolado tenham atrapalhado a banda, mas o fato é que muita gente saiu antes do final do show.
Antes de debandar, uma dessas pessoas teclava no celular (impossível não ler aquela telinha azul piscando na sua frente no escuro…) algo como “meu Deus, o MGMT é o pior pesadelo do Pink Floyd”.
A reação é compreensível. Ao vivo, a banda não atende as expectativas pop criadas pelas músicas de maior sucesso de “Oracular spetacular”.
Não que isso seja exatamente uma crítica negativa. Simplesmente, as músicas não surgem tão dançantes e estruturadas como em boa parte do disco.
Certamente, é bem diferente do que se pode esperar — a escolha de tocar uma versão de “Mindless child of motherhood”, do Kinks, não deixa dúvidas disso.
Isso não quer dizer que seja ruim, apenas diferente do que se espera, o que é até bom. Sabendo disso, na segunda vez possa ser ainda melhor.

Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser
Depois de saírem brevemente do palco, Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser voltaram, sozinhos, para cantar “Kids” sobre uma base pré-gravada. Em seguida, parte da banda também voltou e tocaram uma música inédita, “Dancing on the beach”.
Num bate-papo rápido após o show (que será extendido numa entrevista, a ser feita nessa sexta), Andrew van Wyngarden disse que estão muito empolgados com a ida ao Brasil, confirmando que irão tocar no TIM Fest.
URBeTV: Vampire Weekend, “Mansard roof”
URBe Fotos
Antes da apresentação do Vampire Weekend, a abertura do White Williams (será a do Piquet?) foi pouco animadora. O quadro, porém, estava prestes a mudar.
Começando por uma vomitada colossal de uma menina, abrindo um clarão pertinho do palco e garantindo uma boa visão do show.
O bloqueio mental causado pelo excesso de hype em torno de algumas bandas é bem difícil de ser superado. As vezes, tanta falação pode ter o efeito contrário, gerando antipatia antes até de se escutar a primeira música.
Recebendo todos os elogios imagináveis na imprensa por seu disco de estréia, o homônimo “Vampire Weekend”, os nova-iorquinos sofrem desse mal. O pior para eles é que não cabe as bandas controlar a dose exata de buchicho para evitar a ressaca.
Enquanto pensava estar ignorando solenemente o Vampire Weekend, após repetidas audições no MySpace da banda enquanto lia as tais matérias a seu respeito, as músicas foram crescendo e a curiosidade aumentando.
Isso — somado ao fato de que só existe uma maneira realmente eficaz de se analisar uma banda: o palco — serviu de impulso para ir a porta do Electric Ballroom tentar a sorte .
Os ingressos estavam esgotados há meses, não se encontrava nem no eBay. Na porta, estavam pedindo 40 libras por uma entrada que originalmente custava 12 libras.
Os agressivos cambistas londrinos são uma turma complicada, tentam inclusive impedir a negociação entre pessoas que querem vender ingressos uma para as outras sem valores extorsivos.
Com sorte, consegue-se comprar pelo preço correto. E quando isso acontece, costuma ser sinal de uma noite boa vindo pela frente.

Vampire Weekend
O Vampire Weekend entrou em cena ovacionado. Vestidos como os garotos formados em faculdades da Ivy League que são, o visual era suéter e sapato, com uma postura levemente nerd. O vocalista estava com a mesmíssima roupa que tocou no Jimmy Kimmel Live. Figurino calculado?
Sem cerimônias, o Vampire Weeend abriu a apresentação com duas de suas músicas mais conhecidas, “Mansard roof” e “Cape Cod Kwassa Kwassa”, essa última sintetizando as intenções do quarteto.
Ezra Koenig centraliza as atenções da formação simples (guitarra, teclado, baixo e bateria), não apenas por ser o cantor. Sua guitarra é o que mais se destaca no diferencial na sonoridade do grupo: as influências do pop africano, de juju music nigeriada ao soukous congolês, também explorados por Peter Gabriel no passado.
Sem se basear nos riffs ou power chords dos onipresentes grupos de rock, o teclado e a guitarra fazem frases, repetidas diversas vezes, indo e voltando, como num mantra pop.
Bem mais pesados ao vivo do que em disco, o segredo do sucesso da banda talvez resida justamente em saber dosar as influências africanas.
A mistura é apenas o bastante para tornar o som diferente do resto. Sem cabecismos, mas também sem atalhos. E, o mais importante, permanecendo pop.
Além de “Oxford comma”, “A-Punk”, “One (Blake’s got a new face)”, “The kids don’t stand a chance” e todo o repertório do disco, vieram também duas músicas novas. Ambas devem fazer parte do novo trabalho, em processo inicial de composição, como o vocalista disse durante o show.
Uma delas, tinha pegada parecida com a de uma guitarrada paraense. Seria interessante saber o que aconteceria se o Vampire Weekend topasse com os mestres Vieira, Curica, Aldo Sena ou mesmo com o La Pupuña.
No palco, o Vampire Weekend confirma o burburinho, obrigando os detratores a darem o braço a torcer. A banda é mesmo boa.
URBeTV: Late of the Pier
fotos e vídeo: URBe
A dica era quente, veio diretamente de um dos Digitalism, em uma mini-entrevista em novembro de 2007. Desde então, o estranho nome ficou na cabeça: Late of the Pier.
Levou alguns meses até aparecer o primeiro show, quando foram a grata surpresa da noite, abrindo para o Justice no Astoria, seguido por um como atração principal na ULU.
Com o lançamento do disco chegando perto, as apresentações começam a se tornar mais frequentes. E apesar de ainda bem pequenas, também estão ficando maiores e/ou mais relevantes. Essa semana foi a vez do Camden Barfly, um lugar para 200 pessoas. Do jeito que a gente gosta.

The Displacements; fitas demo;
Collapsing Cities; A Place to Bury Strangers
Foi-se o tempo em que bandas fazendo propaganda (seja na TV ou em turnês patrocinadas) era queimação de filme e certeiras acusações de vendida. Nesse estranho mundo novo, é quase um status, atestado de “grandeza”, um grupo estar envolvido em algo assim.
A noite era parte de uma turnê chamada “Levi’s: one’s to watch”, e teve ainda o Collapsing Cities (OK), The Displacements (fraco) e A Place to Bury Strangers (bizarro e bom). Na banquinha que vendia material das bandas, um passo adiante (ou atrás) na nostalgia dos compactos de vinil: fitas demo. Fazia tempo que essas não apareciam.

Late of the Pier
O LOTP não parecia cansado do péssimo show da noite anterior, em Birmingham, como contou o baixista Andrew Faley. Elétricos e derretendo no palco, talvez movidos a MDMA, o quarteto fez a mesma bagunça que vem fazendo, misturando rock, metal, eletrônica, psicodelia e histeria adolescente.
Dia 18 de maio sai o primeiro single, um Lado A duplo, com as músicas “Space and the Woods” e “Focker”. O disco cheio vem na sequência.
URBe TV: Café Tacvba, “Como te extraño”
Os sinais de que o público do comportado Barbican Centre no dia 03 de maio seria um tanto diferente estavam claros desde a entrada. Era noite de show do Café Tacvba, um dos maiores nomes do México e um imã para comunidade latina.
Em vez da tradicional pontualidade britânica (que, aliás, é papo sério), a quantidade de gente chegando em cima da hora, cantando, conversando alto e bebendo, não deixava espaço para dúvidas de que seria uma noite um pouco mais caliente que o habitual.
Os brasileiros radicados em Nova York, Forró in the Dark abriram a noite. Mesmo com um pouco mais de água na mistura do que o necessário, o grupo conseguiu agradar o público que estava lá mesmo para ver os mexicanos.
O Café Tacvba esteve no Brasil em 1997, sem muito alarde, no Festival Tordesilhas, organizado pela MTV, que trouxe também os colombianos Aterciopelados e os argentinos do Illya Kuryaki. A barreira da língua provavelmente explica porque a banda não faz o mesmo sucesso na terrinha comparado com o resto da América Latina.
Liderados pelo carismático vocalista /guitarrista Rubén Albarrán, o Café Tacvba, junto coma platéia, quebrou todos os protocolos do Barbican. Flashes eram disparados sem parar, as pessoas dançavam nos corredores e ficavam em pé nas cadeiras.
Não vai ser surpresa se o grupo nunca mais puder tocar na casa. Não bastasse o descontrole dos fãs com a avalancha de éxitos, enfileirando “No controles”, “Ingrata”, “Esa noche”, “Eres”, “Las flores”, “La locomotora” (cata no YouTube, estão todas lá), o vocalista resolveu convidar a turma para subir no palco. Obviamente, foi a senha para a invasão.
No final, com todos mais calmos, encerram a fiesta com “Como te extraño”, seu maior sucesso e a música que talvez melhor ilustre o título de “Paralamas do Sucesso mexicano”.
Na platéia, pipocavam bandeiras da Argentina, Venezuela e, claro, México. Só faltou a do Brasil.
URBeTV: Lykke Li, “Beating it up”
vídeos e fotos: URBe
É sempre uma grata surpresa quando o show de abertura é melhor que a atração principal. Quando isso não se deve ao fato da estrela da noite ser uma decepção, mas por méritos próprios do convidado, é ótimo. Se você nunca tiver escutado o artista antes, melhor ainda.
Essas três coisas aconteceram ontem, no Scala, em Londres, quando a sueca Lykke Li tocou antes do francês Sebastien Tellier (e antes dos dois, com a casa praticamente vazia, Bridgette Amofah)
URBeTV: Sebastien Tellier, “Divine”
Mesmo que parte gráfica do seu lançamento mais recente, “Sexuality”, entregasse a cafonice bem humorada do trabalho, as credenciais do Sebasiten Tellier — disco produzido por Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk), elogios de Nicolas Godin (Air) — não davam a dica do que estava por vir.
Para construir um Sebastien Tellier brasileiro, seria preciso imaginar o João Brasil, preso no corpo do Paulo César Peréio, tocando o repertório de uma parceria imaginária entre Fausto Fawcett e Reginaldo Rossi. Ou algo assim.
Dançando totalmente desajeitado, o sujeito fez amor com o piano, com o pedestal do microfone, com a guitarra, se apalpou como se fosse o Michael Jackon, ignorou os pedidos para que falasse em inglês e fez piadas em francês, para alegria dos seus muitos conterrâneos presentes e se esbaldou no temas soft-porn, revezando-se entre o piano e a guitarra, com direito a solo de metal.
É até difícil não se distrair com o personagem criado por Tellier, totalmente embuído do tema do seu disco, levando a canastrice ao limite. Prestando atenção a parte musical, percebe-se que a piada tem conteúdo. O recheio é de boas melodias, teclados oitentistas, ecos de Jean Michel Jarre e instrumentos bem tocados por uma bom trio de apoio (baixo no sintetizador, bateria repleta de pads eletrônicos e teclados).
Divertido e engraçado, sem ser engraçadinho.

Lykke Li
A loucura orgasmástica promovida por Sebastien Tellier não parece, nem de longe, relacionada com o nome escolhido para tocar antes dele. A atitude, cada um a seu modo, talvez seja o elo entre os dois.
Com disco produzido por Björn (do Peter, Björn and John) e tocando pelo mundo com Shout out Louds e El Perro del Mar, aos 22 anos a sueca está enturmada na cena de seu país. Aos poucos, vai ampliando seu território, arrastando um público considerável (e atento) para quem era a banda de abertura.
Lykke Li não faz o estilo menininha-de-voz-rouca que tem inundado o mercado atualmente. Apesar de baixinha e loirinha, se coloca no palco sem se preocupar exatamente se o cabelo vai estar despenteado — não estava.
Ainda que soe minimalista em diversos momentos, o som é cheio de detalhes e nuances, com elementos de folk e eletrônica, sem ser exatamente uma mistura disso.
Ao vivo, acompanhada por bateria, guitarra e teclado, os graves ganham mais peso. Além de cantar, Lykke brinca com um kazoo, batuca em tamborim e agogôs e arrisca umas pancadas na bateria.
No show, durante as músicas do disco em que seu vocal é dobrado, ela usa trechos pré-gravados para produzir o mesmo efeito. O curioso é que, em alguns casos, ela escolhe fazer o vocal de apoio ao vivo, em vez da voz principal.
Vestida de preto e dançando de maneira desconpasada, o foco é mesmo na sua voz, doce e angelical, quase infantil. Com essa descrição, poderia ser um desastre, rapidamente desmentido por faixas como “Little bit”, “I’m good, I’m gone” ou “Dance dance dance”.
Tem tudo pra decolar e o hype em torno do seu nome parece estar apenas começando, após passagens pelo festival americano SXSW e pelo programa de TV inglês “Later… with Jools Holland”.
Até onde vai, é com ela mesmo. Como disse o Berna, ao passar a dica, “ela tem onda”.
URBe TV: Chromeo
Com tantas músicas boas — “Bonafied lovin”, “Needy girl”, “Tenderoni” — do divertido disco “Fancy footwork”, é uma decepção descobrir que o Chromeo não consegue transpor para o palco suas camadas de sintetizadores oitentistas de maneira convincente.
Resumindo bastante, o show no Koko foi praticamente um playback. A dupla simplesmente despe suas produções de alguns elementos para poder reproduzi-los ao vivo, para assim ter o que fazer no palco.
Um riff de guitarra, uma batucada no agogô, um tecladinho e o vocal é tudo que eles tem a oferecer. O resto é base pré-gravada e apertar play (no caso do Chromeo, saindo sem pressão nenhuma). Ah, com longas interrupções entre todas as músicas.
Não tem uma virada diferente, uma mudança e, principalmente, não tem carisma nenhum. Pode botar a culpa na conta dessa mistura — praticamente obrigatória atualmente — entre rock (ou os preceitos de um show de rock) e eletrônica.
Parece que hoje todo artista de música eletrônica tem que ter um live pa, uma formação de palco minimamente semelhante a de uma banda (segurar uma guitarra ajuda bastante), maquiados com um cenário esperto, para justificar um show.
Está dando saudades de ver alguém simplesmente levando uma pista, sozinho (o que é não tarefa fácil).
Nem tudo se encaixa nesse formato. Ou melhor, nem todos conseguem se encaixar nesse formato. O Chromeo não consegue, talvez porque levem a brincadeira a sério demais.

Late of the Pier
vídeo e fotos: URBe
Depois de abrir para o Chemical Brother e para Klaxons em suas duas últimas passagens pela cidade, finalmente o Justice fez um show como atração principal em Londres. O curioso é que, justo esse, foi o mais estranho dos três. Quem se destacou foi a molecada do Late of the Pier.
A banda já havia sido citada por um dos integrantes do Digitalism, em entrevista pro URBe”, no final do ano passado. Pouco depois, apareceram na coletânea Kitsuné Maison 5, com um remix do Fairy Lights para boa “Broken”.
Com integrantes na média de 21 anos, o Late of the Pier faz um rock dançante e sombrio, com fortes referências oitentistas, metal e uso de sintetizadores e, claro. No palco, o quarteto utiliza bateria, guitarra, baixo (esses dois se alternando seus intrumentos com sintetizadores Mini-Korg, com vocoder) e um sampler (MPC 1000) sendo tocado, em vez de simplesmente soltar bases e efeitos.
Late of the Pier
Totalmente alucinados, ao vivo o LOTP soa melhor que nas gravações. Talvez porque o grosso do que saiu até agora (com excessão de dois singles) são versões demo. O disco cheio está previsto para o primeiro semestre desse ano e está sendo produzido por Erol Alkan.
O evento era parte da NME Shockwave Tour, organizado pela revista mais desesperada em lançar candidatos a mais-nova-maior-banda-de-todos-os-tempos (no mínimo, uma por semana). Muito lida por adolescentes, estes eram maioria esmagadora do público.
A turma da frente não parecia simplesmente estar simplesmente esperando o Justice começar. Cantando as letras e pulando sem parar, a coisa beirava o tumulto. Principalmente por conta de uns óculos distribuídos de papel distribuídos antes do show (fazendo propaganda do próximo lançamento, “The bears are coming”), semelhantes aqueles de 3D.
As lentes produziam um efeito caleidoscópico, multiplicando os integrantes, distorcendo as luzes e as cores. A foto logo acima foi tirada utilizando os óculos como filtro e dão uma leve noção. Ninguém via nada direito, desorientação total.
Justice
Pra os que (ainda) acreditam que apresentações de artistas de música eletrônica são todas iguais — “o cara aperta play no computador e depois fica vendo e-mail” — uma sequência de shows do Justice mostra que não é bem assim.
Ainda que as variações possam ser sutis, com diferentes citações ou remixes, especialmente no caso da dupla francesa, barulhenta por natureza, um outro elemento pode fazer diferença: o peso.
Fechando a noite no Astoria, o Justice sentou a mamona, no que deve ter sido uma de suas aparições mais, hmm…, metálicas. Podreira pura. Tanta, que em muitos momentos só dava pra se defender da chuva de cotovelos. Seria bom se tivesse sido um pouco mais dançante.

A levada Jackson 5 de “D.A.N.C.E.” normalmente já vai para o espaço mesmo, via remix do MSTRKRT. Dessa vez, não sobrou nada, todas as músicas foram soterradas pelas pancadas. Coitado de quem vai parar no show levado por “D.A.N.C.E.”.
Não por acaso, o encerramento foi com um remix de “Master of puppets”, do Metallica. Vendo os dois de jaqueta de couro preta, cercados por pilhas de amplificadores Marshall, estava totalmente dentro do contexto.
URBe TV
Muito bom poder assistir Moptop e Móveis Coloniais de Acaju no Canecão, num evento que contou com o apoio do URBe. São bandas que merecem tocar num palco tão bacana, com som bom, num esquema decente.
No vídeo acima, você assiste a trechos dos shows e entrevistas com os vocalistas de ambos os grupos.
fotos e vídeo: URBe, Joca Vidal e Carol*
Mais um ano, mais uma festa, mais uma noitada e tanto. As festas do URBe são sempre bem diferentes uma das outras, principalmente pela escalação das atrações. Só tem uma coisa que é sempre igual: na noite da festa, chove.
Nessa edição, trocou-se o 00, casa das três primeiras festas, pelo Pista 3. A mudança não teve nenhum motivo especial, além da vontade de experimentar novos ares. Num lugar menor, prestigiaram a comemoração os leitores e os amigos, sem tantos “curiosos”, como das outras vezes.

Ménage à Trois
Mantendo a tradição de se respeitar os horários divulgados na filipeta ao máximo, o show do Ménage à Trois abriu a noite com apenas 25 minutos de atraso.
Letícia Novaes (vocal), Donatinho e Pcatran (ambos comandando uma parafernália de teclados, bases e efeitos) mostraram, para os felizardos que chegaram cedo, a força da “resposta carioca ao Cansei de Ser Sexy”, como ouviu-se comentar durante a apresentação.
Enquanto Donatinho e Pcatran chamam atenção com ótimas bases — com destaque para as intervenções do filho do João Donato no teclado e em sua bateria virtual, controlada através de um joystick wi-fi do Nintendo Wii — é Letícia quem se destaca no trio.
Perfomática, a cantora/atriz/roteirista/show woman lança frases aparentemente desconexas, pedindo chupadas no umbigo e juntando a letra do seu potencial hit, “Fuck music”, com “Sexy back” (Justin Timberlake) e “Promiscuous girl” (Nelly Furtado), com a voz alterada por filtros, sobre uma batida de funk.
O BPM das músicas talvez seja muito baixo para as pistas de dança, local que parece adequado para as apresentações do trio. Acelerando as bases e ajustando as folgas, o Ménage pode ganhar mais pressão e ter um caminho surpreendente pela frente.

A expo
A anunciada exposição “5 anos de palco”, de Joca Vidal, infelizmente acabou não acontecendo. Por problemas técnicos no projetor, a instalação criada pelo fotógrafo e curador da expo, Lucas Bori, não pode ser montada.
As fotos do Joca seriam projetadas em oito telas brancas presas na parede. Cada uma dessas telas exibiria cerca de quatro fotos diferentes, alternadamente, numa solução prática e criativa para a limitação de alguns arquivos digitais.
Tentaremos montar a exposição nessa quinta (17 de maio), no Cinematéque, quando haverá o show do Lucas Santtana & Seleção Natural. Assim que (e se) estiver confirmado, aviso aqui.

MauVal
Num momento de honra para o URBe, Maurício Valladares assumiu os toca-discos quando a festa já estava cheia. MauVal desorientou a pista, como ele gosta de dizer, tocando de Coltrane a Curtis Mayfield.
Ouvi dizer que Maurício não havia levado discos “de pista”, porque pensou que iria abrir a festa, como se isso tivesse sido algum problema. Não fez a menor diferença. Foi uma discotecagem educativa e quem ouviu aprendeu um bocado. Só pérola.

em cima: João Brasil e as PSG; a festa
em baixo: o público se diverte; Marcos Mion e João Brasil
Grande atração da noite, o mito João Brasil fez sua aguardada estréia nos palcos. E bota aguardada nisso. Seus novos fãs da MTV, Marcos Mion e cia, vieram de São Paulo especialmente para cobrir o acontecimento e as Pet Shop Girls causaram frenesi no Pista 3.
Abre parênteses.
Antes de mais nada, cabe aqui um adendo. Esses dias perguntaram se, apesar de muito legal, a cobertura dos passos do João não estaria um tanto excessiva no URBe. “Parece que ele é seu amigo”, disseram.
Já falei isso aqui, mas para evitar qualquer disse-me-disse, não custa relembrar: João é meu amigo sim, desde os 12 anos de idade. Além disso, minha produtora de vídeo fica no mesmo sobrado que o seu estúdio.
Nada disso, no entanto, interfere na quantidade de espaço dedicado ao João no URBe. Mesmo porque, ele não é meu único amigo que trabalha com música e nem todos eles passam por aqui. Se o que João faz não fosse genuinamente interessante, o URBe estaria falando sozinho. E, pelo que se vê, não é o que acontece.
Fecha parênteses.

Voltando ao que interessa, João Brasil começou a milhão. Após a entrada ao som de “Carmina Burana” e uma vinheta exaltando a si mesmo, João abriu com “Baranga”, à pedidos da equipe de MTV, dançando com as loiras do programa Mucho Macho, enfiado num roupão de oncinha e de óculos escuros.
Não foi uma má idéia começar com seu grande sucesso. Com o público ganho, João emendou “Supercool” e contou a espetacular história do pau molão, para delírio dos presentes.

Cantandoao vivo, João tocou teclado em algumas músicas, soltou as bases através de um laptop e os samples pelo midi.
Lidando com seu público cara-a-cara pela primeira vez, João falou bastante. Nervosismo de primeiro show, normal. O público entrou na onda, atendo o seu pedido e entoando “pau molão! pau molão!” entre todas as músicas.
Vieram “Elisa”, “O carnaval acabou com meu fígado” e a inédita “Cobrinha fanfarrona (ela vai te pegar)”. “Monica Valvogeu” teve direito a sample da jornalista e surpreendeu quem nunca tinha ouvido tão bela declaração de amor.
Brasil incluiu no repertório o mais recente sucesso internético, “VTNC”, de autoria desconhecida, que voou por e-mail essa semana, se consagrando em apenas três dias.

Na parte final, João convidou seu ídolo De Leve, apresentando-o como seu rapper favorito, para juntos cantarem “Mamãe virei capitalista” e “O que que nego quer”, essa última do MC de Niterói e que tem base de João. Ao vivo, os dois funcionaram ainda melhor que nas gravações.
O encerramento triunfal veio com o bis de “Baranga”. Jogo ganho de goleada, João partiu pra festa com tudo e nunca mais foi visto.

URBe SS
Com a pista fervendo após a catarse provocada por João Brasil, botei som por uma hora. Começando com “Pela orla dos velhos tempos” (na versão de Lucas Santanna) e partindo para “Outsiders” (Franz Ferdinand), “First gear” (Rapture), “Phanton” (Justice), “Zdarlight” (Digitalism), “Gravity’s rainbow (Soulwax remix)” (Klaxons), “Paris” (MSTRKRFT) fechando com “Fluorescent adolescent” (Arctic Monkeys).

Mustache DJs
Na sequência, Filipe Raposo representou o Mustache DJs, desfalcado de sua metade, Breno Pineschi. E tome space disco, disco music e outros sacolejos, até as 3 e pouco da manhã, quando a pista continuava cheia.

DJ Babão
Encerrando a festa, o DJ Babão deu um show de mixagens. A precisão de Babão é assustadora, virando músicas a cada minuto e meio, sempre acertando e fazendo a pista gritar.
Único da noite a tocar com vinis, Babão misturou “Tive razão” (Seu Jorge) com uma base de hip hop, “Bizarre love triangle” (New Order) com “Hollaback girl” (Gwen Stefani) e tocou a versão funk de “Sending all my love” (Linear) e “It’s automatic” (Freestyle).
No saldo final, a Letícia perdeu o casaco, o João os óculos, o Pcatran o suporte do teclado e muita gente perdeu a linha. O que só comprova que a jogação foi quente, a mais divertida festa do URBe até hoje. Ano que vem tem mais.
Cidadão Instigado, crepe com borda de queijo, Banda Só Bonecos,
Wado… Um passeio visual pelo FMI.
fotos e vídeo: URBe
Seguindo o caminho de outras cidades do Nordeste (Recife e o Abril Pro Rock, Natal e o Mada, etc.), o Festival da Música Independente de Maceió chegou decidido a colocar Alagoas no circuito nacional.
Qualquer eventual pensamento negativo despertado pela sigla infeliz do festival (FMI), se desfez com bons shows e boa organização.
Festivais como esse são importantes para fortalecer a cena. Não apenas no que se refere aos músicos e bandas, mas também as outras funções que cercam o assunto, da produção ao jornalismo.
Por exemplo, são sempre uma boa oportunidade para reencontrar e conhecer coleguinhas de outras paradas. Estavam lá o comparsa Matias, o pernambucano Xico Sá, os paulistas Marcelo Costa, Chris e AD Luna, os mineiros Mariana e Terence, além do carioca Julin. E assim as pontes vão se formando e as idéias circulando.
Misturando atrações locais (15 no total) com atrações de outros estados, o FMI reuniu 24 nomes com o objetivo de exibir e amplificar a produção alagoana e também outros estados do Nordeste (por isso tantos convites para jornalistas de fora), origem da maioria absoluta das bandas envolvidas.
Faz sentido, afinal, se o objetivo é fomentar uma cena local — motivação declarada pelo idealizador do festival, André Frazão — é necessário artistas locais. 24 nomes, no entanto, talvez tenha sido demais, tornando a maratona de três dias um pouco cansativa. Nada grave, é a sede de mostrar serviço, compreensível em se tratando do primeiro evento de música independente desse porte em Maceió.
Na noite de abertura, Tom Zé, que havia tocado em Maceió apenas uma única vez, em 1962, foi a atração principal no centenário Teatro Deodoro, utilizado apenas na estréia do evento. Reformado em 1998, o lugar é uma beleza, com frisas e camarotes em estilo neoclássico.
O cenário de ópera caiu bem para Tom Zé e sua opereta rock sobre as mulheres, do disco “Estudando o pagode”. Depois de ensinar o público a cantar cada uma das músicas, fazer piadas e desconcertar os presentes com comentários ácidos, o baiano enfileirou seus clássicos (“Augusta, Angélica e Consolação”, “Fliperama”, etc.), muitas vezes parando no meio para começar a próxima, como que tirando o atraso de 40 e tantos anos sem visitar Maceió.
Antes dele teve o forró do Chau do Pife (AL) e depois Bonsucesso Samba Clube (PE) e Tororó do Rojão (AL), anunciado como o “tsunami do forró”. Bacana mesmo era a Banda Só Bonecos, que tocava na entrada do teatro. É o Kraftwerk brasileiro.
Disfarçada pelos bonecos do nome, trata-se de uma engenhoca de tocar forró, baião e guitarrada mecanicamente. Robôs de verdade tocando música (e sem laptop!). Programar seus pandeiros, agogôs e teclados, sem falar no leitor ótico, foi trabalho de mais de dez anos de um senhor de idade. Valeu a pena, o troço é genial.
Durante os shows que se seguiram, Tom Zé atendeu pacientemente a fila de fãs que se formou para cumprimentá-lo e pedir autógrafos nos discos e livros que compravam. É parte do trabalho do artista, claro, mesmo assim a paciência com que ele conversava com cada um, sem pressa de fazer a fila andar, significa muito para um fã que praticamente não tem chance de acompanhar seu ídolo de perto, pelo menos não em casa.
Os ingressos mais caros e o lugar pequeno da primeira noite (e que mesmo assim não lotou) deram a impressão de que o festival seria morno. Errado. Os segundo e terceiro dias, no Armazém Uzina (com capacidade para 4 mil pessoas) foram de casa cheia, ainda que, aparentemente, todas as entradas não tenham sido vendidas.
Foi nesses dias que deu pra notar a boa produção do evento. Não faltou nada. Eram dois palcos funcionando alternadamente (o principal, num espaço com ar condicionado, parecia o palco Lab, do TIM Festival), ambos com boa qualidade de som e luz, projeções, sala de imprensa equipada e praça de alimentação com frozen de cajá e um inacreditável crepe com borda de queijo.
Wado e Cidadão Instigado, as atrações mais aguardadas (fora o Tom Zé, cuja apresentação foi praticamente um evento paralelo), tocaram no sábado, segunda noite do FMI. Antes deles vieram Basílio Sé (AL), Experiência Apyus (RN), Duofel (AL/SP), e Marcelo Cabral e Trio Coisa Linda (AL), fazendo bons shows para um público ainda pequeno (Xique Baratinho — o Jethro Tull de Alagoas, Cícero Flor e Beto Batera encerram a noitada).
O Cidadão Instigado fez valer a viagem de 2 mil quilômetros de alguns — ou o preço do ingresso para outros. Catatau e sua trupe fizeram um show enxuto por conta do tempo, o que acabou privilegiando as melhores músicas do repertório. Melhor ainda foi a sorte de ter presenciado (e capturado) um momento especial no camarim, antes do show.
Conversávamos (Matias, Marcelo e eu) com o Régis Damasceno, enquanto ele afinava seu violão, quando o Catatau entrou no camarim. Ele queria passar “O tempo” com o músico que iria tocar rabeca na música. Geralmente tímido, Catatau ignorou nossa presença e o que se seguiu foi uma versão acústica de uma das melhores músicas do disco “Cidadão Instigado e o método túfo de experiências”. No final, todos estavam cantando junto, até que Catatau percebeu, deu uma risada envergonhado e se retirou (tem um trecho disso no vídeo acima).
Se tudo acontecer como tem que acontecer e o trabalho de Catatau receber o reconhecimento que merece, o FMI poderá dizer que teve em seu primeiro ano um dos principais nomes da música brasileira atual. Aliás, mesmo que a consagração não venha, azar de quem não tiver a oportunidade de conhecer o som. Vai sair perdendo.
Sem tocar na sua cidade “natal” (ele nasceu em Florianópolis e cresceu em Maceió) há dois anos, Wado conseguiu uma boa reação do público, que participou, pediu bis, o escambau. Pra resumir: mais um ótimo show do Wado, só que dessa vez com uma recepção a altura. Deu gosto de ver. Coisa que, infelizmente, nunca se viu no Rio, onde Wado morou nos últimos dois anos, se apresentando e tentando, sem sucesso, fazer o jogo virar.
Há duas semanas Wado voltou para Maceió. Descolou uma casa na praia da Guaxuma (onde fica o comentado Bar Brasil) e está tocando a vida de lá. Cansou do Rio, da apatia cultural da cidade, da dificuldade que é realizar qualquer coisa por aqui. Nas conversas com outros músicos nos bastidores do evento, a impressão era a mesma. O Rio hoje, por incrível que pareça, é considerado nulo para a maior parte das bandas.
Não dá pra deixar de pensar: como é que no Rio, supostamente uma das pontas do eixo cultural, nunca se vê um festival independente com uma estrutura dessas? Sim, há muita coisa boa por aqui, mas em geral são eventos com bons nomes, porém sem algo maior, um conceito ou o que valha, na maior parte das vezes por falta de recursos.
O Ruído costuma ter escalações interessantes, mas depende da estrutura do lugar onde estiver acontecendo (o que, no Rio, quase sempre é receita pra desastre) e ainda não conseguiu se transformar num evento de porte nacional. O Humaitá pra Peixe é o mais bem estruturado, mas sofre com o horário e tamanho do Espaço Cultural Sergio Porto, com os humores dos modismos cariocas e, conseqüentemente, com o desinteresse do público.
O público. Esse deve mesmo ser um fator determinante. Pode até ser que, depois de anos renegado, o público do Nordeste (como foi em Maceió) seja mais interessado. Ou mesmo que ter ficado fora rota dos grandes shows tenha servido de impulso para o surgimento de cenas locais. Mas é simplista afirmar que é apenas isso. Porque banda boa e gente se mexendo o Rio tem. O que não tem — e isso fica cada vez mais claro — é um público curioso. Porquê, é complicado dizer. Talvez por ser uma cidade diurna. Difícil explicar.

Aproveitando a viagem, deu para conhecer um pouco das redondezas durante o dia. Maceió deve ser a maior cidade de 900 mil habitantes do mundo. Tudo é longe. A cidade se move verticalmente, ao longo da costa, como se evitasse ir em direção ao interior e ser obrigada a encarar a dureza do sertão.
Parti com Marcelo e Matias para uma turnê relâmpago pelo litoral. No som, a trilha oficial da viagem (o “chá lá lalalá, chá lá lalalá, chá lalá…”, da ainda inédita “Novo prazer”, do Mombojó) e na janela praias, lagoas e visuais incríveis sem nenhuma máquina fotográfica pra registrar.
A primeira parada foi na Praia do Francês e seus coqueirais, cartão postal da cidade. Estava imunda. Pinicos, tampas de privada e toneladas de garrafas pet se espalhavam pela areia. Embora, verdade seja dita, a Barra de São Miguel também não estivesse limpa, é difícil acreditar que seja desse jeito sempre. Deve ter acontecido algo fora do normal.
De lá, seguindo a dica de uma das produtoras do FMI, fomos para Massagueira, um povoado de pescadores em torno de um lago, com vários restaurantes de frutos do mar. O escolhido foi o Bar do Pato, com uma escada que leva ao lago, para tomar cerveja curtindo o pôr-do-sol. Uma tristeza mesmo…
Na volta pro hotel, gravamos um algumas coisas para o podcast do Matias, o Vida Fodona.
No domingo, a última noite do evento começou com Santa Máfia (CE/RJ), Vibrações Rasta (AL), Projeto Cru (SP), o auto-explicativo Negroove (RE), Vitor Pirralho (AL) e Pedra do Raio (PE/AL).
O primeiro show a ter atenção total do público foi a psicodelia do Mopho (AL), ovacionado pela torcida local. Depois vieram Jackson Envenenado (PB) e, fechando a tampa, a sequência Sonic Junior (AL), Autoramas (RJ) e a lenda alagoana Living in the Shit, retornando aos palcos depois de anos.
O Sonic Junior mostrou produções bem interessantes. Agora sozinho (antes era uma dupla) e após derrapadas como o projeto PR5, com Paulo Ricardo, Juninho deu a volta por cima. O som totalmente voltado pra pista, com toques de db, breaks e percussão, bem poderia estar no Skol Beats.
O Autoramas fez o de sempre, arrancando pulos e gritos as 3h da manhã de uma turma que estava vendo shows desde as 19h. Encerrando o festival, o Living in the Shit tocou pra um Armazém Uzina vazio. Com apenas três músicas, a última van partiu e até mesmo a imprensa teve que ir embora. Ano que vem tem mais.
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O URBe viajou a convite da produção do festival.
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