
O designer Fabio Lopez ficou conhecido em 2007, quando divulgou na internet uma de suas criações, uma polêmica adaptaçnao do jogo “War” chamada “War In Rio”, e viu seu nome aparecer em tudo quanto é jornal. São dele também os Pictogramas Cariocas Rio 2016 e a Batalha Na Vala.
Nunca havia converado com o Fabio. Autor de dois dos cartazes do hexa do Flamengo publicados por aqui. Isso até “No Sapatinho We Can” (a já clássica versão do pôster de Shepar Fairey com o técnico Andrade no lugar de Obama) ter parado na capa da Globo.com (que citou o URBe como fonte) e descobrirmos uma tonelada de amigos em comum.
Nesse papo informal por e-mail ele contou histórias dos bastidores da repercussão do “War In Rio”, assunto que ele costuma abordar em sua palestra “Minhas Idéias São Minhas Putas”.
O jogo não é novidade, porém o tema, infelizmente, continua atual. Além disso, é importante registrar o processo pelo qual o Fábio passou e a proporção que seu trabalho inesperadamente tomou. Pedi então pra publicar essa conversa e ele autorizou.
Como não foi uma entrevista propriamente dita, separei os assuntos em tópicos.
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Reações ao “War in Rio”
Fábio Lopez - Ainda recebo e-mails de gente pedindo o tabuleiro ou perguntando onde encontra pra comprar. A maioria dessas mensagens ficou sem resposta, pela falta de tempo e porque eu acho que não entenderam exatamente a essência do projeto. Por outro lado, outros me contactaram elogiando a iniciativa ou contando histórias relacionadas à violência. Com essas eu troquei mensagens interessantes sobre segurança pública, sobre a função do design como instrumento de crítica social e outras iniciativas parecidas. Acompanhei opiniões em blogues e na própria página do projeto sem editar nada. Queria ver como as pessoas estava reagindo ao projeto.
A polícia e o “War in Rio”
Fábio Lopez - Teve um episódio com um soldado do BOPE que foi foda. Havia um parágrafo no texto do blogue em que eu me referia a PM e ao BOPE como ‘marginais do bem’. Então um sujeito escreveu dizendo que tinha se amarrado no projeto e tal, mas queria fazer uma observação muito séria. E começou a dizer em letras garrafais que ‘marginal do bem é o CARALHO’, que o BOPE se mete na lama pra enxugar gelo enquanto playboy que nem eu vai pra festinha fumar maconha, e encerrou assinando ‘CAVEIRA’ (!!!).
Como eu não sabia que merda ia dar aquilo tudo - isso rolou nas primeiras três horas de repercussão - fiquei bolado e removi o parágrafo, sem deixar de responder a mensagem do cara e questionar o tom dos comentários. Fiz isso também pra sacar se o cara era um combatente mesmo ou era apenas um maluco querendo dar uma escrotada.

A conversa por e-mail tomou um rumo mais civilizado, o cara passou a assinar o próprio nome e escreveu de maneira bem mais respeitosa. Eu também pude me colocar melhor em relação ao projeto e a gente seguiu trocando ideia: acabei entrando em contato com um personagem do tabuleiro a partir de um esbarrão completamente inesperado. Era um ‘caveira’ mesmo, um cara da minha idade, de classe média e mestrando que nem eu (na época), só que trabalhava no CORE combatendo marginais de 15 anos armados com fuzis de guerra e artilharia anti-aérea. Por que? Por que o cara acreditava que alguém precisava fazer isso pra barbárie não dominar a cidade do Rio de Janeiro, e aceitava o sacrifício para preservar uma sociedade na qual ele parecia estar cada vez mais desacreditado.
No momento em que me escreveu eu simbolizava pra ele um sujeito criativo, mas pertencente a raça de hipócritas pelos quais seus companheiros morriam gratuitamente (ele estava transtornado por ter perdido um parceiro alvejado num helicóptero na semana anterior). Depois viu que eu era um cara politizado, consciente e que estava usando o projeto pra discutir um assunto importante. Teve a hombridade de reconhecer o exagero, e desejou que eu continuasse, à minha maneira, lutando pelo que acreditava. Desejei o mesmo. Volta e meia releio aquelas mensagens e respiro fundo, refletindo sobre a brutalidade daquele cotidiano de guerra e sobre as palavras de apoio que trocamos.
Confesso que fiz bem em tirar esse trecho sobre as milícias, por que havia incluído as MILÍCIAS como ‘marginais do bem’ e umas três pessoas questionaram essa afirmação. Eu concordei com elas. É que na época havia pouca informação sobre a atividade marginal das milícias - que estourou junto com a violência nos dois anos seguintes. Por isso a ‘censura’ acabou servindo pra preservar o texto do projeto de um equívoco verdadeiro.
Responsabilidade surgidas com o projeto
Fábio Lopez - A ideia inicial do projeto era um questionamento social profundo? Não, não era. Mas a ideia era atingir as pessoas em cheio, e estava acontecendo. O projeto nasceu, cresceu e virou um monstro, e eu fui obrigado a assumir um papel diferente como autor. Não comercializar, não distribuir, não tratar como brincadeira o que era uma realidade escrota pra muitos - e a paródia acabou virando um manifesto de verdade.

Conhecendo o tabuleiro
Fábio Lopez - Outro episódio marcante foi quando apresentei o projeto numa mini-palestra na escola de artes visuais Kabum! Uma amiga trabalhava lá na época (Mariana Aurélio) e me chamou pra apresentar o projeto pros alunos. Porra, eu sabia que ela dava aula pra uma molecada vinda de comunidade carente, e achei que ela estava me desafiando. Algo do tipo: quero ver se tu tem coragem de trazer essa merda pra cá ou se tua parada é fazer piadinha pra televisão (o projeto mexeu muito comigo, e eu fiquei muito tocado pelas questões morais que envolvia). Então eu tinha que ir, ou seria um rato pra mim mesmo - mas foi foda.
Na Kabum! eles trabalham com garotos indicados por outros programas sociais (uma garotada que manda bem, se destaca e ganha a oportunidade de aprender mais) e com uma galera que eles chamam de borderlines, cuja participação simboliza a ultima chance de reintegrar meninos que estão a um passo da marginalidade. (Eu conhecia a escola, mas não conhecia esse detalhe). Então lá fui eu, com o desafio de apresentar um projeto que trazia representado no mapa a casa de quase todos ali.
A primeira reação dos meninos foi achar divertido encontrar o nome de suas comunidades no tabuleiro. Achei isso muito estranho: eu tava falando de guerra, mas eles ficaram felizes simplesmente por existir no mapa. Entendi o sentido humano da expressão ‘comunidade carente’, e tive alguma ideia do que é morar num lugar ignorado pelo Estado.
Então comecei a falar de design gráfico, de projetos pessoais, explicar porque eu tinha feito aquilo, quais os meus motivos, qual a minha revolta… Aos poucos eles foram baixando a guarda (não era um playboy zoando com a gente) e comecei a escutar as histórias deles também: de um BOPE que entra na favela metendo o pé na porta, de policial fazendo merda, de parente executado, de tiroteio na hora da escola… Viver no front é um inferno que a gente não faz ideia.
A turma sentava meio dividida, e levou mais tempo pra metade ‘borderline’ confiar em mim: ali ninguém tinha visto porra nenhuma na internet, não conhecia War, blogue e o escambau. Foi tenso, mas acho que no final eu consegui romper uma barreira social óbvia que nos separava, e acho que eles ganharam alguma coisa com as minhas palavras também.
Conversei com a Mariana, e ela disse que não tinha me chamado por desafio nenhum - e eu percebi que precisava descansar daquela história. Eu tava sendo consumido por todas as questões que o projeto arrastava: saí e tive vontade de tacar o jogo no canal do mangue, como se isso fosse resolver alguma coisa.
Os desafios morais
Fábio Lopez - A maioria das pessoas que lembra do “War in Rio” associa o projeto ao oba-oba, a fama repentina, e ao sucesso de um jogo que circulava loucamente pela internet. Mas as pessoas não tem muita ideia do quanto foi difícil manter a integridade moral diante de tanta merda que eu podia ter feito ou falado com aquele projeto debaixo do braço. Eu tive a sorte de ser escutado naquele momento e precisei assumir a responsabilidade de passar uma mensagem positiva: era isso ou ficar marcado pra sempre como ‘o babaca do War in Rio’.
Relação com a imprensa
Além dessas histórias, leve em consideração o caos pessoal de um dia estar em casa na encolha, e no dia seguinte estar sendo solicitado por todas as emissoras de TV aberta, seis jornais, revistas e etc.
Por sorte, na época, eu namorava uma menina que era do meio jornalístico, e ela sugeriu que eu me preparasse pra ser intensamente consumido pela notícia e logo depois descartado. Para que me preparasse psicologicamente pra esse abismo. A fama instantânea traz prestígio, mas isso some com a mesma rapidez. Ela também me orientou a tratar os jornalistas com educação e muita paciência, mesmo se fizessem as perguntas mais idiotas do mundo - e fizeram - pois no dia seguinte a palavra final é deles. Para tomar cuidado com tudo que eu dissesse, e mesmo assim eu vi entrevista editada e foto substituída pra moldar meu perfil de acordo com a repercussão do projeto.

Vi editor de jornal grande ir atrás das autoridades de segurança do Estado com o microfone na mão, pra captar opiniões absurdas em relação a notícia que eles haviam publicado. Acordei com a manchete ‘Autoridades abrem fogo contra War Tropa de Elite’ e tive medo. Um repórter da TV perguntou se eu queria algum efeito de distorção na minha cara: eu disse que não tinha feito nada de errado e não tinha porque me esconder. Mas nessa manhã eu achei que estava perdendo o controle da situação e desmarquei uma entrevista já dentro do carro da emissora. Percebi que a ideia da jornalista era fazer piada com a parada, e depois quem ia levar fumo era eu. Expliquei isso pra equipe e eles mudaram a pauta, na hora e literalmente nas coxas da repórter.
Ainda assim, me recusei a sorrir nas fotos e nas gravações com medo de virar alvo fácil de patrulheiros morais - a ponto da minha vó de 90 anos reclamar que eu estava sério demais, rs… Dei uma entrevista ao vivo pra uma rádio agachado embaixo de uma mesa na redação da RedeTV (por conta do barulho), e todas as perguntas diziam respeito apenas aos comentários do secretário de Segurança do Estado. Não dei entrevista em casa pra ninguém mostrar que eu não morava na favela, e tive que tomar cuidado pra ninguém me filmar ou fotografar com a carta ‘eliminar o Comando Vermelho da cidade do Rio de Janeiro’, por que minha mãe sonha um dia em ter netos, rs…

Recebi e-mail de apoio de gente que eu admirava pra caralho, e de gente que resolveu dar uma surfada na onda pra se promover com o jogo. Vi advogado conceituado escrevendo artigo sugerindo que eu processasse o secretário Beltrame por ter me acusado de estar fazendo apologia à violência, e também ouvi o Chefe da Polícia Civil dizendo que nunca tinha jogado War na vida. Dei entrevista ao jornal da Globo com uma camisa da Esdi, e recebi a ligação carinhosa do diretor da escola. :)
Resultados profissionais
Não ganhei um centavo direto com esse projeto: sabia das questões legais que isto envolveria e não quis assumir o passivo moral de vender um jogo que banalizava o problema da violência na cidade - isso era exatamente o que eu NÃO queria fazer. A outra questão é que eu jamais poderia imaginar o que estava por vir, e não tinha como estar preparado para o interesse comercial que o trabalho despertou. Era pra ser daquele jeito.
Profissionalmente o retorno foi bastante positivo. Com os colegas designers a repercussão foi bem mais duradoura e consistente, como se eu tivesse conquistado uma pontinha de admiração eterna - e isso é muito melhor que escutar um elogio desconhecido de qualquer autoridade.
Também tive medo de virar apenas o ‘cara do War In Rio’, mas depois aprendi a lidar com esse ‘fantasma’ positivamente. Tenho uma atuação profissional diversificada, e os colegas de profissão me conhecem por outros projetos (curso de tipografia, estampas, textos). Mas “War in Rio” é um patrimônio do qual eu também não tenho porque me envergonhar. Virou um cartão de visita interessante, e um tema divertido para palestras e rodas de bate-papo - apesar de eu sentir um pouco de vergonha pra falar do projeto (eu me empolgo, melhor desconversar).
O projeto hoje em dia é uma espécie de ponto turístico da internet e ainda recebe umas 2.000 visitas mensais e e-mails, mesmo eu não tendo postado nada no blog desde novembro de 2007. Em 2009 o jogo (objeto físico) participou de duas exposições em São Paulo: uma de design e uma de arte contemporânea.
Joguei “War in Rio” uma vez no fim de 2007 pra experimentar o tabuleiro, e vi que o mapa diferente atrapalha um pouco a dinâmica do jogo. Nas duas primeiras rodadas era curioso: ‘Três contra dois da Rocinha pro Vidigal’. Aí foi perdendo a graça, por que toda piada de mau gosto sempre desce um pouco atravessada. No final não foi divertido, e nunca mais usei o projeto.
“War in Rio” em números
• 70.000 acessos ao blog nos três primeiros dias de projeto – hoje a visitação total do projeto gira em torno de 160.000 visitantes;
• 2.200 mensagens eletrônicas (a maioria interessada na compra do projeto);
• Capa de cinco jornais de grande circulação: Extra (por 2 dias), Diário de São Paulo, Destak, Estado de São Paulo e Metro. Matéria interna em outros 3 grandes jornais: O Globo, Folha de São Paulo – caderno Folhateen e Jornal do Comércio (PE);
• Entrevistas concedidas a sete emissoras de televisão e duas de rádio: Globo (Jornal da Noite), Band Rio, RedeTV!, TV Record, GloboNews,TV Brasil (programa Recorte Cultural) e PlayTV (grupo Band); rádio Paradiso e Band FM;
• Publicado em 5 revistas: IstoÉ, Revista da Semana, Computer Arts, Jungle Drums (ING) e Tabu (jornal Sol - POR). Noticiado em versões digitais de outras cinco revistas: Cult, Trip, Galileu, Rolling Stones e Mac Magazine;
• Entrevistas concedidas para diversos jornais na internet: Globo, Folha, Extra e Estadão on line. Noticiado em portais de notícia: G1, MSN Notícias, iG, Yahoo e Terra Notícias, Agência AFP, Agência Estado e Observatório da Imprensa. Entrevistado pelo portal DesignBrasil.org.br;
• Apresentado na escola Kabum! de artes visuais;
• Noticiado em mais de 120 saites e blogs, como: Designers Justiceiros, Pedro Dória, Sydney Resende, São Paulo Fashion Week, Omelete, Nice to meet you (US), Banco Real, Computer Love, Coletivo Mobile, Design Gráfico e outros;
• Participação do projeto em dua exposições: 9ª Bienal de Design Gráfico da ADG 2009, e exposição “Outros Passatempos”, organizada pelo SESC da Vila Mariana em SP, março de 2009
Qualquer semelhança com fatos recentes terá sido mera coincidência.
Como sempre, inédito ou em arquivo, Hermes & Renato na mosca.
Dois policiais. Que nojo. Não tem outra coisa pra se dizer de gente assim, é triste demais.
Isso arranha a imagem não só do Rio, mas do Brasil inteiro, muito, mas muito mais do que o caso do helicóptero da PM abatido a tiros por traficantes.
Dos bandidos não se espera outra coisa mesmo.
Versão anos 2000 do clássico italiano “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica.
Ladrão dá raiva, não há como negar. Porém espancamento também segue sendo crime, não custa lembrar.
Via @salim > BernaBauer

foto: Fernando Quevedo/O Globo
A confusão se houve ou não houve um arrastão no túnel Zuzu Angel, quarta-feira, prossegue, diz o jornal O Globo:
Nada, absolutamente nada é simples no Rio de Janeiro hoje em dia.

frame da reportagem da Globo.com
Horas depois do tumulto, a notícia: o arrastão no túnel Zuzu Angel nunca houve. Foi tudo um grande mal entendido.
A pergunta é: e faz diferença?
Lembra aquela velha questão: se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém está lá para ouvir, há barulho?
De certa maneira é ainda pior ver a que ponto a paranóia coletiva chegou.

foto tirada com celular, vídeo do caos a caminho
São 21h25 e há dez minutos vi uma cena que nunca vou esquecer: o Rio de Janeiro de quatro.
Estava voltando da produtora, em São Conrado, de carona com o Lins, quando notamos que o trânsito no sentido contrário, para Barra, estava interrompido. Entre as duas galerias do túnel Zuzu Angel, na parte a céu aberto, começamos a ver policiais a pé e carros abandonado pontuando a pista.
Os sinais eram claros, um arrastão tinha acabado de acontecer. Por questão de minutos — e muita sorte — não estávamos no local errado, na hora errada.
Dentro do túnel a cena era desoladora. Entre os carros abandonados, alguns de porta aberta, estilhaços de para-choques fruto das batidas de motoristas tentando fugir de ré. Com o túnel fechado, um engarrafamento gigantesco dá um nó na cidade nesse momento.
A sensação foi a de atravessar um set de filmagem de um desses filmes catástrofes, com a diferença de que era real. Em meio ao caos um funcionário da Cet-Rio anunciava que o túnel estava liberado e chamava os motoristas para retornar aos carros para que o trânsito possa voltar a fluir.
Na saída do túnel, os mostradores eletrônicos intercalavam informes do trânsito com a mensagem “Olimpíadas 2016. Rio, cidade candidata”.
É inacreditável a cegueira que toma conta desse lugar.
O disco voador no Jornal Nacional
Depois de dar de cara com a foto de um helicóptero içando um cadáver após um confronto em favela de Copa na capa do jornal, o sobrevôo do disco voador do artista plástico americano virou fichinha.
O OVNI filmado de uma janela em Copa, com comentários e crítica
social feitos pelo autor do registro, dvd style
“Tudo que você precisa é de três caras e um barco pequeno e no dia seguinte vocês estão milionários”
Essa história dos piratas atuando na costa da Somália é tão surreal que assusta a falta de contextualização nas matérias que tem saído por aqui.
O NYT esclarece a questão, explicando que os piratas começaram a atuar como milícias, afugentando barcos de pesca comerciais que estavam varrendo o atum da costa do país sem pagar impostos após o desmoronamento do governo local.
Essa modalidade de assalto/sequestro não tem no Rio. Ainda.
Pela declaração dada na entrevista coletiva, Adriano deve abandonar o futebol para ingressar no Los Hermanos:
“Paro por tempo indeterminado, o que não quer dizer que seja definitivo”
Gracinhas a parte, o fato mais interessante desse caso do atacante é a declaração de amor feita a comunidade onde nasceu, Vila Cruzeiro, justo num momento em que as favelas tem dominado o noticiário carioca com a construção de muros e propostas de remoção — apoiada por 95% dos leitores que participaram da enquete no saite do jornal O Globo.
Duvide das soluções que parecem fáceis demais pra ser verdade. Elas costumam não ser.

Santa Marta
foto: O Globo/Marcelo Carnaval
“Estado levanta muro no Dona Marta; na Zona Sul serão 11 mil metros de concreto”
O milagre que torna medidas paliativas tão atraentes para os políticos é o fato de que as melhores costumam emplacar no imaginário popular exatamente pela sensação de solução imediata que oferecem, nem no entanto resolver coisa nenhuma.
E todos gostariam de soluções mágicas para grandes problemas. Só rindo mesmo… Resumindo um longo papo com o Antonio sobre esses assuntos, leia o texto do Elio Gaspari sobre a questão do muro.
Entrevista do José Junior, coordenador executivo do AfroReggae, feita para o blogue da Adidas. É sempre importante ouvir uma voz sensata em meio aos momentos tão turbulentos no Rio (e lá vem as críticas ao Junior por estar utilizando o boné da marca, etc.).
Recebi essas fotos de uma amiga. Foi assim que ela encontrou seu carro na terça de manhã em Copacabana, de onde ela saiu na segunda a noite de táxi, fugindo do tiroteio entre polícia e traficantes na ladeira dos Tabajaras.
Que cidade legal, que situação razoável você voltar para buscar seu carro, no dia seguinte a um gigante enxame de bezouro sem asas ter te expulsado do trabalho, e encontrá-lo crivado de balas.
Pior é ter que ficar alegre com a “sorte” de não ter ninguém dentro.
Aqui no Rio? Tá tudo tranquilo.
Compre o DVD do filme “Última parada 174″ e ganhe uma viagem para o Rio!
Via Penkala.
“Entrevista do Ricardo Batman” (sem número)
Escangalhado, Chico Bala, Gaguinho, Seu Delson… Essa é a turma que Batman, líder do grupo de milícia Liga da Justiça, que comanda diversas comunidades da Zona Oeste do Rio, cita em uma série de depoimentos postados no YouTube.
Do nome do usuário (batmanvoltou) ao teor das declarações (repletas de contradições), tudo indica não se tratar de uma entrevista, mas sim de um comunicado de Batman, respondendo a perguntas que lhe interessam, interpretando os fatos que lhe convém.
Batman diz que a Liga é criação da imprensa, mas minutos depois responde a questões sobre a mesma Liga sem titubear, se vangloria de saber usar as armas que pegou do tráfico, e fala em recuperar “o que é seu”. Pra fechar, veja só, cobra agilidade da justiça antes de se entregar a polícia.
Sua principal fonte de renda vem da exploração das linhas de transporte alternativo. Fica cada vez mais difícil enxergar as vans (e suas bandalhas, desrespeito as regras de trânsico) como algo positivo.
O que necessário é coragem para organizar o transporte público, não fugir do problema fingindo oferecer uma alternativa a algo que deveria funcionar. Da maneira que funcionam (e como surgiram), as vans não passam de um remendo mal dado.
Lembro de quando estive na Bolívia, em 2000, e como fiquei impressionado com esse tipo de transporte, que até então não existia no Rio. A cena dos auxiliares pendurados na janela, berrando destinos era um caos que parecia distante.
Quanta ingenuidade, como se fôssemos nos aproximar do modelo de transporte europeu, não dos nossos vizinhos - hermanos em mais aspectos do que gostaríamos de admitir.
Batman não se considera um bandido.
“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 1
“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 2
“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 3

O trabalhador Luiz Carlos Franco: marmita roubada
“Bandidos fazem arrastão e roubam até marmita na Zona Norte”
O trecho abaixo — assim como a imagem acima — não está na versão digital da reportagem do Globo (cujo saite anda cada vez pior, cheio de erros bobos, tomando banho até dentro de casa, da Globo.com):
“(…) até agora não localizaram a minha marmita. É frango com quiabo e macarrão. Só que o molho é de tomate e vai acabar estragando - reclamou o trabalhador que, até as 14h30 ainda não tinha feito qualquer refeição.”
Quanto espírito de porco… Lá vou eu repetindo a ladainha: cada um tem que fazer a sua parte e assumir suas responsabilidades ou esse lugar aqui não vai pra frente. De jeito nenhum.
Roubar? Gente humilde? MARMITA?!
Teaser do doc “Cidade do funk”, ainda em produção, de Sabrina Fidalgo
(o vídeo tem 4 minutos, apesar de estar marcando 9 no contador)
Os assuntos continuam a se misturar. Agora ocupada pela Polícia Militar, estão proibidos os bailes funk na Cidade de Deus.
Independente de qualquer ilegalidade que cerque esses bailes, mesmo os que são (eram?) oferecidos pelos traficantes, uma coisa é certa: a culpa não é da música.
Respondendo a um comentário no texto falando do projeto de lei que pretende definir o funk como “forma de manifestação cultural popular”, sugeri a leitura de um texto sobre a relação entre violência e funk que havia escrito em 2005, após uma visita ao baile da Formiga.
Como o assunto se torna outra vez relevante, republico o texto. Fica aqui um trecho e o link para quem quiser ler a íntegra:
Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.

foto:Daniela Dacorso
“Seria o cúmulo da vergonha considerar um tipo de música tão vulgar e ridícula como forma de manifestação popular. É forma de manifestação do mau gosto. Isso sem falar que os bailes funk servem para ajudar a financiar o tráfico de drogas, coisa que todos sabem, com letras que fazem apologia à violência, ao crime e à prostituição” (grifo meu)
Como previsto, o projeto de lei do deputado Chico Alencar que define o funk como “forma de manifestação cultural popular” vai indignando a classe média, ao menos a parcela que vibra lendo colunas sobre gatos no Segundo Caderno — e sabe de tudo.
Violenta são essas generalizações, coisas que “todo mundo sabe”.
Não sei o que é pior, a necessidade de um canetaço para estabelecer algo óbvio ou gente esperneando, resistindo a lógica.
Caso venha realmente a ser utilizado, levantará a desgastada e polêmica discussão sobre a responsabilidade dos usuários de drogas pela violência urbana provocada pelo tráfico.
Para os que acreditam que esse é um caminho eficaz de encarar o problema, recomenda-se a leitura do resumo do blogue 30 Segundos, em cinco partes: 1, 2, 3, 4, e 5.
URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”,
filmado com uma câmera fotográfica digital
doc e fotos: Bruno Natal
A notícia de que o tráfico havia sido expulso da comunidade pela polícia era tão boa que só vendo para crer. Aos pés do Santa Marta, o plano inicial sofreu uma pequena modificação.
A idéia era simplesmente chegar e subir as ladeiras, sem pedir autorização a ninguém, exatamente como se faz transitando entre bairros no asfalto da cidade.
Dado o tamanho da novidade, não custava nada avaliar a situação falando com os policiais na viatura estacionada na subida da ladeira:
- E aí, é só meter o pé mesmo?
- Pode subir, tá na boa. Acabou de subir um monte de jornalistas com o comandante do 2o Batalhão, pelo bondinho.
- Então não tem bandido na área mesmo?
- Olha, subindo pelo bondinho tá tranquilo. Mas deve ter vagabundo escondido na mata ainda.

As iniciais do Comando Vermelho num muro: cicatrizes recentes
O bondinho é um plano inclinado que funciona como um elevador para os moradores da favela mais íngrime do Rio, onde vários repórteres aguardavam para ser levados ao topo do morro pela secretária de educação e pelo comandante da polícia.
A perspectiva de uma visita guiada oficial era desanimadora. Nada podia estar mais distante do objetivo original de simplesmente visitar a favela como quem vai a qualquer outro bairro da cidade. Sem falar na fila de mais de meia-hora pra subir no bondinho.
A grande revolução que pode ser promovida por uma comunidade sem tráfico é justamente possibilitar o encontro de duas realidades cada vez mais distantes.
O Rio de Janeiro precisa se tornar uma cidade só, sem separações, para se reerguer e reestruturar. O que isso pode trazer de bom é a livre circulação de pessoas e idéias.

Pierre Azevedo e dois de seus alunos de percussão
Decidi subir a pé e logo conheci o Pierre Azevedo, diretor da ONG Atitude Social. Baixista e ex-morador da comunidade, ele dá aulas de percussão para criançada na Casa de Cultura Dedé.
Tendo Pierre como guia (mas não uma escolta, pois realmente o morro estava calmo) para não me perder pelas vielas e chegar até o topo, rapidamente comecei a conversar com alguns moradores.
Por ingenuidade, não esperava o tipo de reação e as resposta que ouvi quando comecei a perguntar sobre as primeiras impressões da ocupação policial e a saída do tráfico.
Não ouvi ninguém reclamar da partida dos traficantes, porém a maior parte das pessoas, além da incredulidade, não acredita muito que isso irá durar. Mais do que isso, estão realmente incomodadas com o choque de regras.
Durante o passeio, ouvi diversas reclamações: que haverá horários para as coisas funcionarem e regras a serem seguidas, as bebedeiras agora vão ser vigiadas, que estouraram a central clandestina de tv a cabo, de que as novas casas e a urbanização impedem as criações de animais e hortas em chácaras… E de como tudo isso altera o ambiente da comunidade como eles a conhecem.
É natural que seja assim. A experiência dessas pessoas com a presença do Estado é, em grande parte, negativa. Além disso, por mais paradoxal que possa soar, existe uma liberdade proporcionada pela ausência do Estado que é difícil de perder.
A frase de um morador, em resposta ao meu argumento de que as melhorias sociais e urbanísticas certamente viram acompanhadas de responsabilidades e deveres, resume bem a questão: “eu não fui criado assim”.
Esse é o ponto central de qualquer projeto que pretenda integrar as favelas ao resto da cidade. Coisa que parecem lógicas e normais no asfalto, são totalmente alienígenas na favela.
Assim como a noção de comunidade desses lugares dá um banho no resto da sociedade, onde vizinhos de porta num mesmo prédio mal se cumprimentam, o que dirá se ajudarem.
Há, claro, também muita desconfiança em relação as reais intenções de um projeto desses.
Da maneira que são hoje, as favelas são em maior parte ocupações ilegais, sem escrituras. Portanto, mesmo algumas delas (as da Zona Sul) estando situadas em áreas nobres, a área não pode ser negociada.
Numa região sem mais um palmo de área livre pra construir, pode ser que estejam preparando o terreno para especulação imobiliária.
Estrutura-se o local e entrega-se as escrituras de posse, para depois deixar o poder aquisitivo falar mais alto, comprar essas propriedades e transformá-las em grandes (e caros) condomínios.
Não é nem um pouco improvável, o condomínio Selva de Pedra, no Leblon, surgiu de maneira até mais agressiva, através de incêndios.
O trabalho nessas comunidades é muito mais difícil do que parece e levanta discussões complexas. Expulsar o tráfico é só o início.
Como disse José Mário, presidente da Associação de Moradores do Santa Marta, estamos entrando num túnel escuro, sem saber o que está do outro lado. Tomara que seja a luz.
URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”
doc e fotos: Bruno Natal
Devido aos problemas para subir o vídeo no YouTube e publicar junto com o texto, resolvi fazer um post separado só com o mini-doc “Santa Marta e o túnel escuro”, para os assinantes do RSS receberem o aviso.

foto: Marcelo Piu / Agência O Globo
Apenas 13 dias após iniciar uma ocupação do Santa Marta, o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, declarou que todas as bocas-de-fumo estão fechadas e que o morro Dona Marta (nome relacionado ao tráfico e que a comunidade local não gosta). Repórteres do jornal O Globo visitaram a favela e realmente não viram traficantes.
Para quem não é do Rio, vale dizer que, apesar de não ser das maiores comunidades em termos numéricos, o Santa Marta fica em Botafogo, coração da Zona Sul, numa das áreas mais valorizadas da cidade e também ponto estratégico para o tráfico.
Se isso de fato está acontecendo (só acredito vendo e vou tentar dar um pulo por lá amanhã), é um marco para cidade. Mostra que é possível o Estado se fazer presente e alterar positivamente o cotididano das favelas.
Isso está sendo possível, diz-se, porque está sendo feita uma ocupação permanente do lugar, não apenas uma missão de combate. A única favela do Rio onde não há tráfico, há anos, é a Tavares Bastos, no Catete, no topo da qual fica a sede do Bope.
É claro que a escolha de favelas da Zona Sul (a próxima deve ser o Chapéu Mangueira, no Leme — não confundir com a Mangueira) para iniciar os projetos não é coincidência, visando aliviar tanto as comunidades quanto o asfato. Porém, há lógica nisso, visto que essas favelas são menores e menos intrincadas do que, por exemplo, as que formam o Complexo do Alemão.
Continuo acreditando mais em escolas no lugar de batalhões. Um dia a gente chega lá.
Kelis Rogers, aquela do “Milkshake”, embolsou a grana e simplesmente deu um bolo no show que tinha marcado no Rio, alegando que não se sentia segura para sair do hotel. Foi para o aeroporto e deu adeus.
Pouco importa que ele seja um dos poucos sujeitos que possa transitar em favelas dominadas por qualquer facção: assaltaram o apartamento do DJ Marlboro.
“Última parada 174″
Estreiando no Festival do Rio 2008, o filme “Última parada 174″, de Bruno Barreto. A premissa do filme é de que a história de Sandro Nascimento, protagonista do sequestro do ônibus 174, em 2000, não foi contada.
Interessante. O único detalhe é que foi sim contada, em fatos reais, no documentário “Ônibus 174″.
“Ônibus 174″
Trata-se de um dos mais celebrados docs brasileiros, em casa e no exterior, vencedor desse mesmo Festival do Rio, onde também estreiou. Não é exatamente como se o assunto não tivesse repercutido.
Difícil entender a relevância de se contar essa história novamente. Será que, por se tratar de ficção, vai atingir um público maior? Ou pura exploração do tema da vez, violência urbana?
A iniciativa é boa: banir os fuzis como armas de patrulha regular da cidade.
Esse ciclo de violência tem que acabar. Comprovadamente, quanto mais arma o Estado coloca na equação, pior fica, pois os bandidos também se equipam, numa escalada sem fim.
Bom pro asfalto, mas por enquanto, nada muda nas favelas. O secretário de segurança falou:
“Para operações em locais em que existem paióis de armas de grosso calibre e onde sabemos que existem bandidos armados com fuzis e até metralhadoras .30, logicamente que os policiais usarão o fuzil. Não posso determinar que o policial fique em desvantagem. Nas favelas, vamos de igual para igual”.
Dois pesos e duas medidas, o problema de sempre no Brasil. Sim, tem que se combater os traficantes, no entanto, colocado assim, soa como uma meia-solução.

foto: Custódio Coimbra/O Globo
A imagem acima ilustra o outdoor de divulgação do ato público em defesa da vida, que será realizado nesta quarta-feira no Rio, com o apoio do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedca).
A ilustração mostra um mãe com o filho ensaguentado nos braços, enquanto um policial observa, com um Caveirão do Bope ao fundo.
Não, ele não está lamentando junto com a mãe o assassinato do menino por bandidos. O sorriso um tanto sádico do soldado, tira qualquer possibilidade de ambiguidade da mensagem.
E de passeata em passeata, de “basta!” em “basta!”, não chegamos a lugar nenhum. Arregaçar as mangas ninguém quer, né, meus caros cariocas?
foto: Lucas Bori
Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.
O destino da noite era o morro da Formiga, para onde o “guia” DJ Marlboro levava um grupo de jornalistas para registrar um baile funk (eu e o fotógrafo Lucas Bori para uma revista, os outros da produção de um programa de TV). O objetivo das duas equipes era o mesmo: conseguir imagens de um baile de verdade, sem maquiagem. A galera que curte o som desde sempre, se divertindo à vontade.
Subindo o morro, uma série de instruções tem que ser seguidas. Todas as janelas do veículo abertas, luz interior acesas e obedecer os comandos do motoqueiro que faz a escolta até o topo. Quase lá em cima, uma barricada de lixeiras filtra a passagem, sob o olhar vigilante de rapazes portando pistolas cromadas. É a chegada.
Fora da quadra de esportes onde acontece o baile, rapazes de 16 anos, andavam com fuzis quase do seu tamanho. Na tensão do momento, só dá pra pensar: “meu irmão, esse muleque não deve fazer muita idéia de como usar esse troço, sabe tanto quanto eu: aperta o gatilho, sai bala. Se der uma cagada aqui, a polícia chegar, uma briga, vai dar merda”. Dentro da quadra, tudo mais tranquilo. Provavelmente por conta da filmagem e das fotos, não tinha nenhuma arma.
O espaço estava vazio. Devido as recentes operações policiais na região, essa era a primeira festa em dias. Os que foram, dançaram, beberam, se divertiram e foram embora. Fora a quantidade de crianças de 6, 8 anos de idade circulando pelo lugar as 3h30 da manhã, não houve nada fora do normal. Nenhuma pancadaria, nenhum proibidão, nenhuma apologia.
Embora nenhuma das equipes estivesse interessada na simplista associação funk/tráfico, as armas estão lá, não tem como ignorar. Como se sabe, o Rio é uma cidade dividida. Em certas partes — em muitas partes — não se entra sem autorização dos “donos” do lugar.
Isso não é exclusividade dos bailes funk, qualquer atividade numa favela dominada pelo tráfico é assim, incluindo os serviços públicos como coleta de lixo, gás e, claro, policiamento.
É importante entender como o funk foi parar nesse ambiente, porque nem sempre foi assim. O grande erro do Estado foi a tentativa de proibição dos bailes no começo dos anos 90, no frenesi pós-arrastão televisionado do Arpoador, quando pela primeira vez o funk foi associado de maneira direta a baderna e atividades ilegais. Obviamente, não deu certo.
Expulsas dos clubes no asfalto, as festas foram se esconder nos morros. Da maneira que acontecem hoje, é impossível fiscalizar. Uma vez dentro das comunidades, não é o Estado quem manda. O esgoto escorrendo pela rua e a quantidade de lixo pelos cantos lembram isso a toda hora.
Os bailes são frequentados tanto por trabalhadores (a maioria) quanto por bandidos. A presença de traficantes não significa que a festa seja deles ou para eles. Eles ouvem funk, como todos misturados ali, e só. O negócio do tráfico é droga, não música.
Dizer que os bailes são festas de bandido é uma generalização burra e irresponsável. Existem os proibidões, funks de exaltação a facções criminosas, entretanto esses são minoria. De qualquer forma, mesmo nos lugares onde o tráfico financia as festas, o faz porque o Estado falhou aí também, ao não proporcionar lazer.
Tentar proibir o funk, como volta e meia é proposto, é combater o efeito, não a causa. É inútil. Ainda que conseguissem acabar com os bailes, outro tipo de música animaria as festas. Porque elas continuariam acontecendo e qualquer que fosse o gênero musical, as coisas seriam exatamente iguais. Não iria demorar muito, apareceria alguém propondo proibir a música nas comunidades.
O que acontece nos morros cariocas não é muito diferente do que acontece no gangsta rap americano, brasileiro ou mesmo com o danchehall jamaicano, como bem falou um amigo. No fundo, todos esse estilos são uma coisa só: música de gueto.
Olhando de longe, parece teatro, mas eles falam sobre a realidade violenta que os cerca. Dr. Dre falando que vai “bust a cap on your ass” ou Elephant Man gritando “Pow! Pow! Pow!” enquanto canta, não é diferente de um garoto falando sobre como as 4h da madrugada “tem que ter uma granada”.
A diferença é que o hip hop e dancehall já se “afaltalizaram” e se espalharam pelo mundo. Existe uma parcela grande de gente sem contato direto com realidades criminosas produzindo esse tipo de som.
A mesma coisa vai acontecer com o funk. Já está acontecendo, timidamente, em músicas como “Quem cagüetou” (Tejo, Black Alien e Speed) ou nas produções do Tetine, Lucas Santtana, Apavoramento, Nego Moçambique ou do americano Diplo e da singalesa MIA.
Enquanto a parede de caixas de som dispara graves atordoantes, fazendo, literalmente, tudo tremer (do chão ao cérebro), fica claro o quanto o trabalho de ponte feito pelo DJ Marlboro é importante. Aproximar morro e asfalto é algo fundamental, pois quanto mais afastados, piores os problemas.
Fechar os olhos, fingir que essas questões não existem, não resolve nada. Tem que ir lá, ver o tamanho da cagada que aprontaram pra gente e, quem sabe asim, tentar fazer alguma coisa pra ajudar a mudar. Porque, se não há justificativa para violência, certamente há explicação.
Quando se fala em ausência de Estado, não está se falando somente de polícia, muito menos do velho “sobe, prende e manda fechar”. O Estado falhou e continua falhando em questões sociais básicas, como educação e oportunidades. Foram essas faltas de condições que proporcionaram o ambiente perfeito para germinação do tal “poder paralelo”.
Agora, com um cenário desses, vem gente dizer que “o funk é violento”. É simplificar demais as coisas. Não são os bailes funk que são violentos. A favela que é.
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