OEsquema

Arquivo: violência urbana

Doc trailer: “The Interrupters”

O quanto os EUA vai ficando parecido com o Brasil é assustador.

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Vai vendo: Commandos do Rio em Ação

Tem que rir, né…

Pior é saber que um brinquedo desses venderia demais.

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Tipografia de flagrante

tipografia de flagrante

Mais uma do Fabio Lopez.

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Tortura psicológica, paranóia ou gracinha


foto: tungada via Google Images

Essa história quase foi parar no Mondo Bizarro, onde poderia ter se encaixado, não fosse tantas dúvidas.

Se você costuma vagar desatento pelas ruas (só assim pra isso ser percebido), seja na zona norte ou na zona sul do Rio, já deve ter visto o outdoor do @casalperseguido, resumindo sua história e divulgando a página Tortura Psicológica.

Resumindo: um casal, talvez num surto paranóico, se diz perseguido desde que receberam uma polpuda herança. Resolveram então divulgar as histórias inacreditáveis em vídeos na rede e também em horário comprado na TV. Além, claro, dos painéis pela cidade.

Sei… A história toda é muito esquisita.

A página tem recursos que não condiziriam com o naipe dos personagens. Sem falar que espalhar painéis pela cidade e horário de TV custam bastante dinheiro.

Entre os 227 seguidores no Twitter (não há indicação se o perfil é oficial ou não), estão a Pepa Filmes e o Mitsu, dois ícones da galhofa da zona norte.

A favor da veracidade da história, o fato do projeto inteiro ser quase bem feito. Apenas quase. Para ser realista ao extremo, os vídeos são longuíssimos, não dá pra assistir. Se a ideia for virar um programa de humor, exige demais do telespectador. Teria que ser um bocado mais leve pra poder pegar.

Bem… por ter publicado algo sobre o assunto – e suspeitado da veracidade – vou ser considerado da quadrilha? Quem tá ficando noiado agora sou eu.


Assista se tiver de bobeira, mesmo assim só um trecho

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O Globo, Dez/2010

Abaixo, a versão sem cortes do texto que escrevi sobre a prisão dos MCs de funk proibidão, publicado no jornal O Globo hoje.

O polêmico proibidão no centro do debate
O diretor Leandro HBL organiza hoje no Estação Botafogo o evento ‘Em defesa do funk’

Acusados de apologia e associação ao tráfico de drogas, os MCs Smith, Frank, Tikão, Max e Dido, todos cantores do estilo conhecido como proibidão, foram presos na semana passada. Hoje, o evento “Em Defesa do Funk”, organizado pelo diretor do documentário “Favela On Blast”, Leandro HBL, a partir das 10h da manhã na sala 2 do cinema Estação Botafogo, com exibição do filme seguida de debate, discute a questão.

Autor do polêmico “Rap Das Armas” e da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk), MC Leonardo enxerga a liberdade de expressão, com seus bônus e ônus, como o ponto central do caso.

- A acusação é exagerada. Não concordo com o que eles estão cantando, mas também não concordo com a polícia, estão fazendo um crime maior que o dos MCs. O Bope canta “Homens de preto qual é a sua missão? / Entrar na favela e deixar corpo no chão”, tem funk no YouTube. Como fica isso? Estamos vivendo a era dos games, no GTA não tem bandido e mocinho, apresentador de TV fala em “largar o aço”, pra “fazer um carinho” em bandido, endossando a tortura. Os valores estão invertidos em todo lugar, inclusive no funk, ainda mais por acontecer dentro da favela, onde há uma inversão de valores há muito tempo.

O proibidão é a vertente mais polêmica do funk, causando mais choque até do que as letras e coreografias eróticas. Nele, os MCs cantam o dia-a-dia da favela do ponto de vista dos traficantes, muitas vezes na primeira pessoa, não raro exaltando nominalmente os líderes do tráfico. “O papo é reto, ouça bem o que te digo / Olha bem dentro do blindado vocês ficam protegido / Você leram no jornal e também viram na TV / Os amigos da Penha botando os verme pra correr”, canta MC Smith em “Mega Operação”. As faixas fazem sucesso nos bailes das comunidades, circulando em CDs caseiros e também pela rede. Por isso, a polícia enxergou então esses MCs como parte do “marketing” das facções criminosas.

Participante da mesa do encontro, assim como o MC Leonardo, o DJ e produtor Sany Pitbull acredita que a prisão dos MCs é combater o sintoma, não a causa.

- O que aconteceu com o funk é o que aconteceu com todas as favelas. O funk foi abandonado, cresceu nas favelas sem apoio nenhum de governo. Esses garotos já poderiam ter parado de cantar proibidão. O MC Sapão saiu da Fazendinha, hoje ele canta Caetano, Gil, com roupagem funk, banda no palco. Sempre que encontro com eles eu pergunto se eles não se preocupam com as crianças. Sou contra, não toco proibidão e falo pra todos para não tocar, mas entendo porque eles cantam.

O assunto é espinhoso. Os muitos convites para opinar sobre a questão feito a compositores da música brasileira foram declinados, a maior parte com um educado “não conheço o suficiente o caso, prefiro não falar”. Haveria um véu de silêncio sobre a questão?

O teor das letras é indiscutivelmente de mau gosto e nocivo. Milhares de crianças e jovens são afetados por essas mensagens negativas, contribuindo para degradação social das comunidades. Celebrar os bandidos também ajuda a criar mitos. Porém, até que se comprove uma associação direta entre os MCs e as práticas criminosas, a música não deveria ser esse elo.

Nos EUA, rappers como Snoop Dogg, Ice Cube ou Dr. Dre foram ícones do estilo gangsta rap, de pegada bem similar. Apesar de ter sido detido diversas vezes pela polícia por porte de drogas, armas e acusação de envolvimento em um assassinato, Snoop Dogg nunca foi preso por suas letras.

Num vídeo feito na prisão pela equipe do Globo Online, MC Frank fala: “Nós nascemos no Complexo do Alemão, tem pessoas que nasceram na Barra e fala sobre surfe, da praia. Quando nós começamos a cantar foi dentro da comunidade e o que nós víamos lá dentro é a criminalidade”.

O documentário “Grosso Calibre”, de Guilherme Arruda, Ludmila Curi e Thiago Vieira, exibido na ONU e concorrendo ao prémio Shooting Poverty da ONG Oxfam, um dos MCs presos, Smith, aborda a questão da forte presença das armas nas comunidades através do proibidão, acompanhando o MC Smith em seu dia-a-dia nos bailes.

- O que eles cantam é um reflexo do cotidiano em muitas comunidades, e é uma musica que encontra eco entre as pessoas que compartilham do mesmo histórico. Eu conheço o Smith e ele se refere a ele mesmo na terceira pessoa, como se fosse um personagem. No filme ele mesmo fala, “O MC Smith não faz apologia ao crime, o MC Smith não faz apologia ao tráfico, o MC Smith retrata o que acontece na comunidade” – conta Ludmila.

No Twiter, Sany Pitbull citou a música “Charles Anjo 45″, de Jorge Ben Jor, interpretada também por Caetano Veloso, Paralamas do Sucesso e outros, sobre o “Robbin Hood dos morros, rei da malandragem”. O cartunista André Dhamer declarou que não é fã de funk, mas perguntou “acha justo prender o Dr. Silvana por cantar ‘taca a mãe pra ver se quica’”?“.

- Eles tem o direito de falar o que quiserem, na constituição não diz como você pode falar do problema, em primeira ou terceira pessoa. Não é só o José Padilha que pode falar o que acontece dentro da favela, ele não mora lá. Vc pode falar o que quiser, agora é uma música de massa, música você escuta até sem querer, as crianças ouvem , tem que ter responsabilidade – diz Leonardo.

O funk fala do que vive, a favela canta pra favela, diz Sany. Segundo ele, favelado não gosta de polícia porque sempre foi esculachado e por muito tempo os traficantes faziam o que o Estado não fazia.
- Agora que está mudando, a polícia mudando. Tem que dar cultura, não adianta só tirar as armas. Não é trazer a Orquestra de NY, é alimentar o que já está lá com coisas boas. Se nada for feito vão aparecer outros Frank, Tikão, Smith e Max e tantos outros.

O MC Leonardo cobra atitudes e soluções educacionais e preventivas, e acredita que faltou conversa.

- Porque não chamou todo mundo pra conversar, mandar tirar os vídeos do YouTube, fazer um acordo? Eles não tem importância na hierarquia. Quem não é pago pelo tráfico pra cantar em avela que atire a primeira pedra, vai ter que prender todo mundo da música brasileira que cantou em favela. Ocupar quadras de favelas ocupadas e ocupar clubes das redondezas. Tem que desenvolver essa ética com educação e família. Entendo a acusação de apologia, mas associação ao tráfico é forçar de barra.

Para Sany, o governo deveria retomar o funk, como fazem com as favelas, numa espécie de UPP cultural.

- Ficar expondo cinco garotos, fora os que ainda vão ser presos, não resolve nada. E a galera que está aqui fora e não tem apoio pra produzir bailes na favela? Porque o governo nunca fez? A questão não é proibir, a questão é dar para aquele moleque e para aquela música abandonada a condição de crescer de maneira correta.

Na última sexta, o multi-instrumentista Curumin, durante seu show no Teatro Rival, tocou uma versão de “Feira de Acari”, do MC Batata, clássico do funk que detalha o funcionamento do mercado de usados que também foi conhecido como “robauto”, onde eram comercializados produtos roubados. Com mais de 20 anos, a música não causou espanto, tampouco o músico paulistano recebeu voz de prisão.

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Doc-curta: “Grosso Calibre”

O documentário de Guilherme Arruda, Ludmila Curi e Thiago Vieira, produzido para o concurso Shooting Poverty organizado pela Oxfam, faz um perfil do MC Smith, que se dedica aos proibidões.

Essa semana, alguns cantores de funk proibidã do Complexo do Alemão foram presos por associação e apologia ao tráfico. MC Smith é um deles.

Liberdade de expressão é algo complicado e delicado. Significa que tudo pode ser falado, sendo bom ou ruim, no julgamento de algumas pessoas. Em alguns poucos minutos o doc mostra que o proibidão é uma questão mais profunda do que aparenta ser.

No Complexo, nada é simples.

Dica do Leandro HBL.

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Rio, violência e imprensa


Luis Eduardo Soares no Roda Viva: indispensável assistir
assista os blocos 2, 3 e 4.

Não se discute que a expulsão de traficantes do Complexo do Alemão é um fato positivo. É uma parte do problema que precisa ser resolvida, em todas as comunidades.

Outro fato positivo foi não tido um banho de sangue, embora tivesse sido o desejo de muita gente, inspirando até jogos online. Mesmo assim, houve acusações gravíssimas de moradores achacados pela polícia.

Tomada pela euforia, a cobertura da grande imprensa se absteve de dar espaço a uma série de questões que são fundamentais e inerentes ao problemática da violência urbana.

O problema é muito maior do que uma mera polarização entre policiais e bandidos. Quem dera fosse tão simples.

Por isso, compartilho aqui alguns textos que considero de leitura fundamental, mesmo para quem não é do Rio, para o entendimento do que está de fato está em curso — e em jogo.

Luis Eduardo Soares, “A crise no Rio e o pastiche midiático” (blogue pessoal)

Luiz Cláudio Souza Alves, “Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime” (Correio do Brasil)

Antonio Engelke, “O capitão Nascimento e o advogado John Adams” (Carta Capital)

Muniz Sodré, “Reality show em tempo real” (Observatório da Imprensa)

Sem debater e encarar essas questões, não vamos sair do lugar. Não tem jeito.


Tirinha de Andre Dahmer

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O efeito UPP

O governo tem sido categórico em afirmar que o pandemônio causado pelos ataques de bandidos pela cidade é retaliação a ação das UPPs. Essa relação direta dos fatos, embora possa fazer bastante sentido, pode não ser tão simples.

Em entrevista a BBC Brasil, o sociólogo Ignácio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ, toca em alguns pontos importantes para se analisar a questão adequadamente:

BBC Brasil – Nesta segunda-feira, o governador Sérgio Cabral afirmou que os arrastões são claramente uma reação ao cerco imposto aos traficantes pelas UPPs. O senhor concorda com essa teoria?

Cano – Não temos como avaliar. Pode ser ou pode não ser. Gostaria de ter uma contabilidade mais confiável para saber se é uma onda de arrastões ou não, e o que está aumentando. Para mim, é mais importante observar número de roubos que vem diminuindo do que o de arrastões.

É claro que, na zona Sul, o perfil do crime vem mudando com o avanço das UPPs. O tráfico perdeu o controle territorial e teve que mudar de estratégias. Mas não sabemos como isso está afetando esses grupos financeiramente. Se a coisa tiver apertando, o roubo pode ter passado a ser uma alternativa.

BBC Brasil – O reconhecimento de uma relação com as UPPs por parte do governo pode mudar algo nas estratégias de Secretaria de Segurança do Rio?

Cano - Acho que essa afirmação é uma forma de o governador dizer que isso está acontecendo porque estamos ganhando uma batalha maior. Como se fossem os efeitos colaterais, diante de um trunfo maior.

O perigo, aqui, é as classes médias acharem que a sua segurança está sendo comprometida por causa das UPPs.

Se passarem a acreditar que o investimento nas UPPs é contraproducente para quem não mora nas favelas, isso poder acabar com a sustentabilidade política do projeto. Sérgio Cabral sempre fez questão de associar a expansão das UPPs a benefícios também para o asfalto, justamente para não correr esse risco.

BBC Brasil – Tirar o tráfico das comunidades é um mérito reconhecido das UPPs. Mas o que precisa ser feito para erradicá-lo?

Cano - O objetivo das UPPs não é e nem pode ser erradicar o tráfico. Ninguém erradica o tráfico, ele existe na Dinamarca, no Canadá. A questão é conseguir reduzir os níveis da violência e de controle da população por grupos armados. Os moradores agora podem voltar para casa quando quiserem, andar pelos becos, não há confronto armado.

Leia a entrevista completa no saite da BBC Brasil.

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O futuro da UPP: uma política para todos?

Enquanto o pau canta no Rio e o Governador “estuda reação organizada aos ataques de bandidos a motoristas”, algumas pessoas discutem como solucionar a questão a longo prazo. Ainda bem.

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Arrastão, adestramento social e política: pensamentos sobre um assalto

Vamos lá, preciso desabafar. Depois vou complementando, alterando, pensando.

“Fodeu! Fodeu!”, ouvi o susto vindo do banco da frente. Levantei a cabeça e o que vi mudou o Rio para sempre para mim.

Como se fosse um rito de passagem, finalmente aconteceu: fui assaltado de maneira brutal na Cidade Maravilhosa. Com mais três amigos, dentro de um carro particular, cenário de grande parte dos episódios de violência urbana na cidade (motivo principal de ter me desfeito do meu há mais de três anos), começava um pesadelo. A tag Violência Urbana aqui do URBe em primeira pessoa.

Durante cerca de quatro minutos (que podem ter sido dois, ou duas horas…), minha vida estava nas mãos dos quatro bandidos fortemente armados que pararam seu carro na frente do nosso para impedir o trânsito, saltaram do carro e anunciaram o assalto – como se fosse necessário.

É aquele clichê, “um filme acontecendo na sua frente”. O choque é tanto que demora até mesmo para o pânico se instalar. E quando você se dá conta do tamanho da merda em que está metido, não tem outra palavra pra descrever: é cagaço mesmo.

Assistindo as imagens da reportagem sobre mais esse arrastão na Rua Faro, no Jardim Botânico, tive uma sensação estranhamente familiar. Se tivessem corpos ao lado do carro, poderia ter sido a matéria sobre um assalto com morte.

A última vez que havia visto a morte tão de perto foi quando fiquei preso no incêndio no Projac, durante uma gravação do “Xuxa Park” em 2001, na época que fazia os vídeos do saite da apresentadora.

Trancado dentro de um estúdio em chamas, apavorado sem conseguir respirar ou enxergar a saída, o pensamento cruzou minha cabeça: “é isso, vou morrer num incêndio, é disso que meus amigos vão falar amanhã, sobre quão perto ou longe eu estava da porta, perguntando porque eu não saí assim que tudo começou em vez de ajudar as pessoas”.

Foi o momento mais angustiante da minha vida. Saí da experiência com apenas uma certeza: quando for a minha vez, que seja rápido. Não quero ter tempo de pensar no que estiver acontecendo.

Quis o destino que eu passasse por situação parecida novamente. Tivesse tudo dado errado, a matéria do RJTV poderia estar relatando além do assalto, também a minha morte. Seria aquela a história contada no meu velório. Pesado, eu sei. Mais pesado ainda foi ter passado por tudo isso.

O (des)equilíbrio que envolve um assalto é delicado. A combinação dos diversos fatores se desenrolando simultaneamente determinam o resultado final: se o primeiro carro vai parar (no caso era o nosso, e trata-se de uma ladeira de paralelepípedos, o que pode dificultar a frear), como cada uma das vítimas vai reagir e responder as ordens, a movimentação e quantidade de transeuntes, se a polícia vai chegar ou  não.

Tudo isso pra dizer que, sim, sei que poderia ter sido muito pior. Sim, estou feliz de ter saído com vida, sem nenhum arranhão. Sim, a parte material pouco importa, é trabalhar e conquistar de novo. Só que infelizmente nada disso alivia o trauma.

Nós, cariocas, passamos a vida nos preparando pra esse momento. Ouvimos atentamente os relatos, lemos sobre a melhor maneira de se comportar. Porém, são tantas variáveis nas infinitas modalidades de assalto que os ladrões praticam no Rio, que na hora que toda esses ensinamentos são necessários, pode dar curto.

Quando a ação iniciou, imediatamente abri a porta do carro e saí. Pra mim eles queriam levar o carro, portanto eu deveria sair. E como um tiroteio era iminente, segui as recomendações de me abaixar e procurar colocar minha cabeça perto da roda, para me proteger de eventuais disparos.

Encolhido, me arrastei pela lateral do carro, numa submissão humilhante, ainda mais impotente diante da situação do que no incêndio. Quando ouvi os gritos de “Pára! Pára! Não se mexe!”, gelei. Percebi que estava fazendo tudo errado.

Os ladrões não tinham mandado ninguém sair do carro. O simples abrir dessa porta, fora do roteiro pré-determinado na cabeça dos bandidos, poderia ter desequilibrado a situação e custado minha vida e a dos outros.

Nesse momento, fechei os olhos forte, esperando tomar um tiro. Não queria ver, só torci pra ser no braço. Ele pegou meu celular, pediu minha carteira, apalpei os bolsos, não achei, lembrei que estava na minha mochila, dentro do carro e avisei.

O tempo todo olhei para o chão. No meu campo de visão, entravam e saíam apenas punhos e armas. Uma Glock, uma 09 milímetros, algo que tanto poderia ser uma submetralhadora ou uma pistola com o pente de munição extendido. “Onde eu aprendi tudo isso? Porque eu sei o nome dessas armas?”, pensei. Nem vi o rosto de quem poderia ter me arrancado a vida.

Um dos ladrões me mandou voltar para dentro do carro. Mas nenhum dos meus amigos estava lá. Achei que fosse ser levado, sozinho. Desesperado de medo, pedi para me deixarem. E eu, que não vou a igreja nem pra casar, fiz o sinal da cruz. Por conta da minha criação, o sinal está embutido, é apenas um código para me conectar com a energia maior, sem barba, na qual acredito.

Eles tiraram a chave da ignição e correram para o carro de onde haviam saído e deram início a fuga. Imediatamente abracei meus amigos, celebramos estarmos todos bem. A rua começou a se movimentar, pessoas assistiam das janelas e varandas, vizinhos saiam dos prédios oferecendo água, discursos exaltados solitários, a polícia chegando pela contra-mão.

Olhando em volta, as imagens do cenário auditivo foram se construindo. Vi as pessoas dos outros carros assaltados, a mulher que saía do prédio na hora do assalto e foi rendida, o porteiro de bicicleta que assistiu a tudo, nosso carro de portas abertas, no meio da rua. Uma multidão atônita.

Hora de começar a tentar fazer sentido disso tudo.

Durante o assalto, uma frase chamou muito minha atenção. Um dos ladrões falou para alguém: “Fica na tua que isso não é contigo, você é trabalhador”. A frase, para o porteiro da bicicleta, levanta várias questões.

A primeira e mais óbvia é o erro grosseiro da análise. Todos somos trabalhadores, honestos e pagamos muitos, muitos impostos. Claro, não foi isso que ele quis dizer. O que o bandido quis dizer é que ele, o porteiro, era humilde. Nós, os “playboys”, não. Somos uns babacas, que não precisam se esforçar para nada, meros caixas eletrônicos para eles sacarem dinheiro. Afinal, roubar sim deve ser um trabalho.

Mas isso é o detalhe, amplificado pela revolta de ter passado por essa situação. O mais importante dessa frase é a percepção que ela traz embutida, propõe uma disputa entre “eles” (os pobres) contra “nós” (a classe média). É um sentimento perigoso.

No local do crime e na delegacia, a imprensa insistia por entrevistas. Nenhum de nós quis falar, melhor não declarar nada de cabeça quente. E, obviamente, ninguém queria aparecer na televisão, por medo. Medo do quê ou de quem, não sei. Os bandidos viram nossos rostos, levaram nossas carteiras de identidade, celulares repletos de informação. Não dá para se esconder.

Um grupo armado se deslocar pela cidade, parar uma rua no meio da Zona Sul para roubar celulares, carteiras e trocados (quem anda com dinheiro no bolso hoje em dia?) me parece uma ação desproporcional, em tamanho e risco, frente ao motivo do crime declarado no registro de ocorrência, “ambição”.

Esse tipo de assalto está sendo chamado de arrastão. O termo foi consagrado durante a cobertura dos tumultos na praia do Arpoador, em 1992, creditado aos “funkeiros” (uma generalização mais palatável para os leitores dos jornais do que “favelados”), por diversos interesses. É curioso vê-lo ressurgir, ainda mais na capa da Veja.

Bastante gente tem dito que a atual onda de crimes nas ruas do Rio são reflexo das UPPs. Sufocados, os bandidos estão procurando dinheiro em ações mais diretas. O raciocínio faz sentido. Como faz sentido muito do que é mostrado em “Tropa de Elite 2″.

Porém, essas associações diretas costuma ser falhas. A entrevista com  José Padilha que fiz para Monet e reproduzi aqui no URBe toca em alguns pontos interessantes. Não há dúvidas que segurança é um direito de todos os cidadãos. Porém, não podemos viver com o coberto curto. É preciso um plano além da simples ocupação das comunidades carentes.

Violência é algo muito mais amplo do que ter uma arma na cabeça, acredite. Quando estava morando em Londres tive a medida exata disso no dia que, lendo um livro e ouvindo iPod no ônibus, passei direto pelo ponto de casa.

Saltei e enquanto caminhava fiquei pensando sobre a possibilidade disso acontecer comigo no Rio. É nula. Primeiro porque não vou levar meu iPod no ônibus, segundo porque não vou ficar distraído dentro de um livro e terceiro porque, na terra do “Ônibus 174″ (primeiro filme exibido no mestrado de documentário que estava cursando lá), assim que embarco estou contando os minutos pra saltar.

Viver assim, com tanto medo e tanta ameaça, no asfalto ou na favela, estressado pelo constante estado de vigilância, é viver chafurdado na violência. Isso é muito triste, muito sério e muito presente. Não aguento mais viver desse jeito. Estou muito, muito chateado, uma tristeza enorme.

Imediatamente passou a se falar em reforçar a segurança e uma patrulha foi colocada na esquina da Rua Faro. Temos a Copa do Mundo e as Olimpíadas a caminho, o Rio segue tentando sair do buraco vendendo-se como um destino turístico. Não tenho dúvidas de que vai dar tudo certo nesses períodos.

O problema é que não deveríamos depender disso para melhorar. Ou melhorar só para isso. O caminho é longo e possível, complicado, mas possível. Há de existir, entretanto, vontade.

Com o dia destroçado, o melhor era mesmo terminar as funções pra poder descansar no dia seguinte. Iniciando a tarefa de reorganização por comprar um novo chip de celular. Surpreendentemente, foi simples. Demorado vão ser meus óculos. Na volta pra casa, peguei um táxi.

Sem a menor necessidade, o motorista ultrapassou um sinal vermelho, a toda, na Avenida Borges de Medeiros, em frente ao meu amado Flamengo. Reclamei e pedi que não fizesse isso novamente. A resposta foi seca: “Quer dirigir? Aqui a responsabilidade é minha.”

“Meu caro, se eu estiver dentro do carro, não é mesmo”, respondi, “pode parar o carro aqui mesmo”. Saltei, sem pagar logicamente. Antes de ir embora, o irracional taxista, gritou: “da próxima vez, vai de carro!”

Se ele soubesse como começou meu dia…

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A tropa, a elite e o sistema

Ótimo texto de Antonio Engelke, publicado no Globo na última terça (atenção: SPOILERS, de leve):

O primeiro ‘Tropa’ veio saciar os anseios de uma população amedrontada, sedenta por vingança. Em 2007, capitão Nascimento vingou as classes média e alta carioca, fazendo o que elas gostariam de fazer, se pudessem: matar bandidos. O público respondeu com aplausos entusiasmados, e se identificou com o oficial do Bope. Tal identificação é retomada logo no início do ‘Tropa 2′, quando Nascimento ridiculariza Fraga. Mas o personagem interpretado por Wagner Moura sofre uma transformação, sai de sua trajetória natural de ‘Caveira’. Se o público chegar ao final do filme ainda se identificando com Nascimento – alguém que denuncia a ineficiência da política de segurança pública baseada no confronto, que diz com todas as letras que a sociedade é coautora dos crimes cometidos por policiais e bandidos -, então ‘Tropa 2′ terá servido a um propósito maior do que o mero entretenimento. É preciso ser muito, mas muito fascista, para sair do filme e continuar ridicularizando a perspectiva e o trabalho de pessoas como Fraga (Marcelo Freixo na vida real, deputado federal pelo PSOL).”

Continue lendo no saite do jornal.

Para complementar, leia a entrevista que fiz com o diretor José Padilha sobre o filme e suas questões e também algumas reflexões de Rodrigo Cássio sobre o título de herói fascista.

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Entrevista – José Padilha (Revista Monet, Out/2010)


foto: Alexandre Lima

Íntegra da entrevista que fiz com o diretor José Padilha sobre “Tropa de Elite 2″ para a revista de programação da na Net, Monet. A conversa foi há dois meses, infelizmente antes de ter assistido o filme.

Bruno Natal – Passados três anos do lançamento do 1º filme, qual é a avaliação do “caso Tropa”? De lá para cá…

José Padilha – Qual dos casos? Tem quinhentos casos, cara…

BN – Do filme mesmo, como experiência mesmo. Da hora que começou, como repercutiu, etc.

JP – Olha, vou fazer um digressão aqui então… Quando fui fazer o primeiro filme eu só tinha filmado documentário. Nossa produtora não faz comercial, o que significa que eu saí de um set de quatro pessoas, três… De um set de documentário, para um set de 100 pessoas, com luz, com um monte de coisa, que era o “Tropa de Elite” – acho que era o maior filme daquele ano, em termos de orçamento – sem ter nenhuma experiência com set grande. O que é uma certa irresponsabilidade, vamos dizer assim, né? Uma porralouquice. Então, para mim, a experiência de filmar o “Tropa” foi muito legal. Porque irresponsabilidade não é uma coisa que falte aqui na nossa produtora. Então, a gente entrou tranquilo, com todo nosso cacife de irresponsabilidade e fez o filme que a gente queria fazer, né? Aí teve… Por isso eu perguntei qual dos casos, né? Bom, aconteceram uma série de coisas estranhas com o filme “Tropa de Elite.”

BN – A pirataria, por exemplo.

JP – A pirataria fez uma diferença brutal na historia do filme e não dá para avaliar o filme, sem avaliar a pirataria. Qual foi a principal diferença? Quando o filme foi lançado nos cinemas ele já estava lançado. Já tinha sido visto, segundo a Folha de S.Paulo, por 11,5 milhões de brasileiros. Depois a gente contratou o Ibope para fazer uma pesquisa e era isso mesmo. Acima de 16 anos, mais de 11 milhões de pessoas já tinha visto o filme antes de ele abrir no cinema. E já tinham escrito críticas sobre o filme antes de ele abrir no cinema. De forma que a recepção do filme não passou pela crítica. O público disse o que achava do filme antes da crítica se manifestar. As críticas que foram escritas antes de abrir no cinema, foram em cima do que o público tava falando. Foi uma experiência única, que não vai se repetir, eu acho, na história do cinema. Pelo menos na minha história eu acho muito difícil que se repita.

BN – Acha ou espera?

JP – Eu espero, né? Trabalho que nem um louco para isso não acontecer! É engraçado, porque você me perguntou qual a avaliação. A avaliação foi anterior ao lançamento do filme. Agora, não existe uma avaliação, né? Existe essa ficção, “qual a avaliação do público sobre o seu filme?” Como se o público fosse uma massa uniforme que tivesse uma só opinião. E não é assim que funciona. Dentro do público você tem milhares de pessoas diferentes. Cada um com sua opinião. Eu não me preocupo muito com isso…

Não fico lendo o que as pessoas escreveram. Eu não entro nessa linha. Eu faço meu filme do jeito que eu gosto, com as pessoas com quem eu tô fazendo. O Wagner Moura, Bráulio Mantovani, Dani Resende, Lula Carvalho, Marcos Prado e tal… Os outros atores. A gente olha pro filme, gostamos do filme e tal. Botamos o filme no festival, botamos o filme no cinema. E vamos em frente, tá certo? Eu não fico voltando sobre o projeto e analisando o projeto com base na opinião das pessoas. Porque isso seria uma receita para eu ficar maluco! Tem um milhão de opiniões diferentes sobre o “Tropa de Elite” publicadas. E sobre qualquer filme que eu tenha feito. Com o “Ônibus 174” foi a mesma coisa.

Então para resumir, qual é a avaliação? A avaliação é que a gente tinha uma produtora pequenininha fazendo um filme irresponsável, porque o tamanho do filme era muito maior do que o tamanho da produtora. E a gente lançou o filme e o filme funcionou para caramba. A avaliação é que o cinema contempla essa possibilidade, né? De um cara sair de uma posição super pequena pra fazer um filme que vira grande. Foi o que aconteceu com a gente.

BN – E a internet, que impacto teve no filme? Você avalia de uma maneira positiva ou negativa? Aposto que seja ambígua, né? Teve um fator positivo nisso, uma maior divulgação.

JP – Por internet, eu vou entender pirataria. Porque eu acho que no caso do “Tropa de Elite”, talvez 90% da pirataria não tenha sido via internet.

BN – Tem razão. Foi banquinha?

JP – Tenha sido via DVD. Eu, por exemplo, vi… Me ligaram, me falaram o que tava acontecendo e eu fui ver pessoalmente. Eu vi, na barca de Niterói, uma televisão com 10 ou 15 cadeiras, pessoas sentadas esperando a barca, vendo o filme. Pagaram um ingresso de dois Reais. Ou seja, foi pirateado o cinema, não foi só o filme. O cara pirateou o cinema inteiro. Fez um cinema pirata. Foi um fenômeno sociológico, não sei explicar. Porque o filme não teve mídia nenhuma no seu lançamento. Vazou um DVD e esse DVD foi copiado, começou a ser vendido, caiu no gosto das pessoas e se espalhou pelo Brasil inteiro. Não só pelo Brasil, tinham pessoas que me ligavam: “Tô aqui em Bali vendo seu filme!”, “Tô aqui não sei aonde vendo seu filme”. “Tô aqui em Portugal”, “em Angola”…S e espalhou pelo mundo, né? Foi um fenômeno sociocultural o que aconteceu com o filme.

Uma parte desse fenômeno depende da internet, outra parte – que é a maior no Brasil – não depende da internet, né? Depende das redes de piratarias de DVD que estão estabelecidas aí. É bom, é legal para um cineasta que seu filme comunique dessa forma, espontaneamente? É, é muito legal que o filme comunique, eu fico feliz que o filme tenha comunicado com as pessoas. O que não significa dizer que pirataria é bom. Não, pirataria é péssimo. Pirataria é sonegação de imposto, pirataria é corrupção policial… Eu mesmo fiz imagens de policiais andando na frente sãs banquinhas enquanto o camelô estava vendendo o DVD. Bom, certamente não é de graça esse passeio policial ali. O policial não está prendendo o camelô por algum motivo, né?

Pirataria é competição desleal. O sujeito que está lá na sua loja de DVD, fazendo seu filme, vendendo seus filmes, alugando e pagando imposto está competindo com o cara que não paga imposto, tá certo? Pirataria é ruim, ponto. Então, é bom ter um filme popular? Muito bom. É bom ter um filme pirateado? Não, muito ruim. É isso.

BN – Você acha que isso afetou o desempenho do filme nos cinemas para baixo ou para cima?

JP – Eu acho que a pirataria aumentou o público do filme como um todo. Ou seja, se você somar todo mundo que viu na pirataria, mais todo mundo que viu no cinema, mais todo mundo que viu na televisão, mais todo mundo que viu no cabo, no Brasil, se você fizer essa soma… Se você tirasse a pirataria, se o filme fosse lançado sem pirataria, esse número agregado seria menor. Mas, o cinema perdeu muito para a pirataria, né?

Como eu te falei, a gente contratou o Ibope para fazer uma pesquisa depois do filme lançado. E o número que o Ibope deu para gente, foi que o filme perdeu 2/3 da sua renda de cinema. Ou seja, se o filme fez 2 milhões e 300 mil [ingressos], podia ter feito seis [milhões]. Perdeu. Significa que a gente teve uma perda financeira grande. Não existe mágica, tá certo? Se alguém pegou o seu filme e distribuiu ele antes da janela de cinema e ele foi visto, evidentemente que você perdeu gente no cinema. Não tem como escapar. Por isso que todos os contratos, de todas as distribuidoras no mundo têm janela, entendeu? O cara não pode lançar em DVD antes do cinema, porque já está auferido pelo mercado, na sua história, que você perde público no cinema se você furar a janela.

BN – É que há quem diga que no caso da música – onde já há alguns estudos mais precisos disso – que muito desse público talvez não fosse ver o filme e viram porque estava disponível dessa maneira.

JP – Por isso que o valor agregado, o número agregado, quando você soma a pirataria, é maior. Mais pessoas viram o filme, eu acho, mas o número do cinema caiu. O sujeito que bota dinheiro pra fazer um filme não tá interessado num número agregado, ele tá interessado no dinheiro que volta para pagar o filme, tá certo?

BN – Bom, então tá. Passado esse período do primeiro para o segundo filme, algumas mudanças estão acontecendo na política de segurança pública do Rio. O filme continua relevante nos assuntos que estão ali?

JP – Qual filme continua relevante?

BN – O “Tropa 1”.

JP – Totalmente. O assunto principal do “Tropa de Elite 1”… Vamos fazer aqui uma pequena digressão. Eu fiz dois filmes sobre violência urbana: Fiz o “Ônibus 174”, que conta a história da violência urbana do ponto de vista de um marginal, né? E que se pergunta como que esse marginal se formou. E conta a história da vida da pessoa para explicar o comportamento dele dentro daquele ônibus. Grosso modo é isso. E o que você descobre quando olha a vida daquele marginal? Que também se chama Nascimento, não por acaso. Você descobre que ele foi maltratado, sobretudo pelo Estado. O Sandro vira menino de rua e menino de rua é responsabilidade do Estado. E o que acontece com ele quanto ele é menino de rua? Primeiro o Estado não pega ele, não ensina ele, não educa ele. Ele fica na rua, ele apanha da polícia, ele é achacado por policial, ele fica jogado na Candelária… Ele vê seus amigos serem assassinados na Candelária… Quando é preso ele vai para o Padre Severino, e o Padre Severino é uma escola de criminalidade, etc. Na medida que você olha para o filme, você se dá conta que quem produz o lado marginal do Sandro é o Estado. Nós mesmos, com o dinheiro do nosso imposto, vamos dizer assim né?

O “Tropa de Elite” é a mesma coisa ao contrário. Quem produz o Capitão Nascimento? Quem produz o policial violento? Quem transforma o Matias numa pessoa capaz de dar um tiro de Calibre 12 na cara do traficante? O Estado. O Estado é que mantém e tem uma organização corrupta e violenta como a Polícia Militar do Rio de Janeiro, né? Faz parte da cultura organizacional da PMERJ esse tipo de comportamento. Está arraigado na cultura. Não da cultura formal, pois se você pegar o formalismo da PM, não tem lá esses comportamentos, mas todo mundo sabe que as organizações têm culturas formais e culturas informais. E que no final das contas, a cultura informal vale mais. Isso é o tema do “Tropa de Elite I”.

Agora eu pergunto para você ou para o telespectador: A PM não corrompe mais? A PM não mata mais? O “Tropa de Elite” está ultrapassado? Não está, né?

BN – O que motiva o “Tropa de Elite II”? É uma continuação desse assunto?

JP – Uma das coisas que eu não vou fazer é contar para você o filme.

BN – Sim, sim. O que te motiva a fazer um segundo filme sobre o mesmo tema?

JP – Um terceiro filme.

BN – Um terceiro filme sobre o mesmo tema. Mas, no caso, um segundo com os mesmos personagens.

JP – Então, o que me motiva a fazer um filme qualquer sobre um tema qualquer? E isso faz parte do estilo dos meus filmes, é tentar dar alguma compreensão – como se fosse uma crônica social – ao público sobre esse tema. E colocar essa compreensão numa estrutura dramática que funcione como cinema.

Então, eu vou dar um exemplo de novo indo para o documentário. Quando eu conto a história do Sandro… A história do Sandro aconteceu de maneira linear no tempo, tá certo? Começou com ele pequeno, foi crescendo… Como qualquer história no mundo real. No documentário eu começo ele no ônibus. Faço um flash forward, né? Por que eu faço isso? Porque eu achei que o flash forward era melhor pra dramaturgia do filme.

Em outras palavras, qualquer filme, inclusive documentários – principalmente documentários – tem duas dimensões: tem uma dimensão epistemológica, da relação do filme com a realidade e uma dimensão dramatúrgica, que é inerente ao filme, para fazer o filme funcionar como cinema. O quê eu me interesso por fazer? Filmes que tenham essas duas dimensões, mesmo na ficção. Um documentário necessariamente vai ter isso, né? Na ficção não necessariamente. “Star Wars” não tem uma dimensão epistemológica, porque “Star Wars” é sobre um universo que não existe, né?

Nos três filmes que eu fiz sobre a violência até agora, “Tropa I”, “Tropa II” e “Ônibus 174”, eu tentei criar uma estrutura de dramaturgia que refletisse aspectos do mundo real. De modo a usar a dramaturgia do filme para gerar debates que eu considero relevantes. Pode chamar isso de cinema político, cinema engajado, como você quiser.

Nos três filmes eu não me preocupei em dar para o público, tempo de reflexão dentro do filme. Nunca me preocupei com isso. Eu não compro a ideia de que eu tenho que afastar o público da história, ou da dramaturgia para o público pensar, numa sequência lenta e arrastada e etc durante o filme. Eu acho que é melhor pegar o público pela emoção e dar todo impacto da história e deixar o público pensar em casa. Tem gente que não gosta disso. Tem 15mil comentários aos meus filmes nesse sentido, “não tem tempo de reflexão dentro do filme”, como se a pessoa não pudesse pensar depois sobre o filme. Como se fosse vedado o pensamento pós-crédito, tá certo? Eu fiz a mesma coisa nos três filmes.

O “Tropa de Elite 2” lida com assuntos que eu não lidei no “Tropa de Elite I” e nem no “Ônibus 174”. Que assuntos são esses você vai ver quando você vir o filme. Eu não faria o filme se não fosse para falar sobre outra coisa. Eu não me interesso em fazer o filme, é muito trabalho, muito tempo, muita ralação, muito risco fazer um filme. Eu, particularmente, não me interesso em fazer um filme que seja só de entretenimento. Nada contra quem faz isso. Não tenho nada contra isso, mas eu não tenho, vamos dizer, paciência para fazer.

Então a gente fez a mesma coisa: Pesquisa… Pesquisamos durante dois ou três anos o tema sobre o qual a gente vai falar, que é milícia, tem a ver com milícia. Não tá falado nem no primeiro filme, nem no segundo filme. Olhamos horas e horas de material da CPI das milícias, transcrevemos todo esse material, estudamos a história da CPI das milícias que teve no Rio de Janeiro agora para entender como que a milícia funciona.

Fizemos uma pesquisa enorme e dessa pesquisa entramos da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado – que é a DRACO – que prendeu os milicianos todos que foram presos. Estudamos os processos todos da DRACO, entrevistamos as pessoas, quer dizer, fizemos um trabalho longo e árduo para fazer um filme que fale sobre um assunto que é muito atual – e que não está sendo lidado direito na minha opinião – no Rio de Janeiro.

Você pode, por exemplo, você perguntou com relação ao que mudou na segurança pública. O que mudou na segurança pública foram essencialmente, na minha opinião, duas coisas: a primeira coisa foi a despolitização das delegacias e dos batalhões. Ou seja, o Governador – antigamente por exemplo, na época da Rosinha Garotinho e do Garotinho – indicava, ou dava para algum vereador, o direito de indicar tal delegado, tal policial militar, etc. O que gerava parte da corrupção que a gente vê na polícia. Parte, não toda. O Sérgio Cabral teve o mérito de acabar com isso. Ele acabou com isso e foi fundamental na segurança pública.

A segunda coisa que mudou na segurança pública não foram as UPPs, foram três coisas que mudaram. A segunda coisa foi essencialmente feita por um cara, Marcelo Freixo, do PSOL, que conseguiu emplacar duas CPIs importantíssimas na ALERJ. Uma não foi nem um CPI, foi o processo de cassação do Álvaro Lins, ex-chefe de policia, com uma série de denúncias de corrupção e Deputado Estadual. O Marcelo conseguiu cassar o Álvaro Lins, apesar de ele não ter partido. Isso mudou, mandou um recado: “Olha só, a impunidade não é total”. E a segunda CPI que o Marcelo fez, foi a CPI das milícias, que prendeu uma série de pessoas, cassou Deputados Estaduais, etc, e que revelou uma conexão que existia, muito forte, entre a milícia e a política. A milícia elegia pessoas, a milícia tomava uma favela, não só fazia dinheiro como caixa de campanha, como pegava o voto daquela favela e alocava no processo político. Isso não está dito em nenhum filme que eu fiz e em nenhum filme que ninguém fez, que eu conheça, até hoje.

E a terceira coisa que mudou, foram as UPPs. As UPPs provaram… As UPPs não são processos…Tem que entender direito o que é uma UPP. Uma UPP não é uma luta contra o tráfico, não resolve o problema do tráfico. O tráfico de drogas continua. E ele nem se propõe a resolver o problema do tráfico. O que ela faz é: tirar um traficante armado de uma favela e ocupar com a polícia. O tráfico continua. Você continua comprando drogas no Rio de Janeiro. Não acabou tráfico de drogas. O que ela faz é mostrar que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro não precisa necessariamente ser violento. Por exemplo, existe tráfico de drogas na Inglaterra e as pessoas não se matam na rua. Não é isso? A UPP faz isso. E recupera o território que um grupo armado tinha tomado –  frupo armado era um grupo de traficantes que tomou normalmente uma favela- e recupera a dignidade das pessoas que moram ali, que não mais controladas, ou administradas por aquele grupo armado.

A UPP é muito boa nesse sentido e eu acho que no curto prazo e no médio prazo, a UPP só vai ser positiva, só vai melhorar os índices de violência no Rio de Janeiro. Sou a favor da UPP, porém, no longo prazo, quem está ocupando a favela no lugar do traficante? É a polícia. Como que funciona a nossa polícia? No longo prazo, se não reformar a polícia, pode ser que a UPP não seja tão boa assim.

BN – Porque até circular… vai cair na milícia de novo. O que é de certa maneira isso, né? UPPs independentes.

JP – Então, você acabou de concluir, por si mesmo, qual é a relevância do filme “Tropa de Elite II”.

BN – Você falou do projeto de pesquisa ser importante e como seu trabalho como documentarista influencia seu trabalho como cineasta de ficção. Seu primeiro filme sobre o tema é um documentário. O “Tropa I” foi feito baseado na pesquisa do livro “Elite da Tropa”, né? Foi o que inspirou?

JP – Na verdade não, foi ao contrário. A gente fez a pesquisa toda do filme. Eu fiz com o Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, agora jornalista. Com o André Batista e com vários policiais que eu entrevistei. Aí eu escrevi um roteiro com o Pimentel, do filme. Quando eu estava lá no sétimo tratamento, eu chamei o Luiz Eduardo Soares e falei: “Olha, tem um milhão de histórias aqui, eu não consigo contar todas. Faz um livro sobre isso”. Nosso roteiro é um roteiro original, não-adaptado, o livro é que nasceu do filme. Só que o livro foi lançado antes.

BN – E agora “Tropa II”, como você disse, também nasce de uma pesquisa grande, você foi atrás de casos reais. Então é uma pesquisa.

JP – Eu não tenho nenhuma imaginação, né? Tenho que buscar as coisas na realidade… (risos)

BN – Pois é. E ao mesmo tempo é um documentário. Você acha que isso é uma característica do seu trabalho, que permanece?

JP – É, permanece no “Tropa III”. Eu nunca fiz um filme que não seja sobre um assunto real, então eu sou obrigado a dizer que isso é uma característica do meu trabalho. Não quer dizer que eu não vá fazer outra coisa amanhã, mas até agora é isso aí.

BN – Então vai ter “Tropa III”, é certo?

JP – Eu falei “Tropa III”, mas é “Tropa II”. Se tiver um “Tropa III”, vai ser “Tropa 3D”! (risos)

BN – Você vê essa nova realidade que você descreveu, esse cenário que vem se desenhando das UPPs, como uma possibilidade de um abordagem para um novo filme? Você tem interesse?

JP – Olha só, o processo das UPPs está no comecinho. O Rio de Janeiro tem mais de 1.700 favelas. Quantas favelas foram ocupadas? Quinze, né? E não é um processo que está dado. Isso não é uma história que acabou, tá certo? É um ótimo projeto, é um bom começo e é o óbvio ululante. A UPP coloca uma pergunta. A UPP não tá mostrando que é facílimo recuperar as favelas? Quantas trocas de tiros tiveram? Né? Nenhuma e tal, estamos aí retomando e tal… A pergunta que eu faço é a seguinte: Então por que não fez isso antes?

Não é obrigação da polícia fazer isso? Não é fácil fazer? Por que foi necessário um programa de governo, um nome UPP, o apoio da mídia para fazer o que a polícia tinha que ter feito há quinhentos anos atrás? Essa é uma pergunta que eu estou colocando não para jogar lama na UPP, porque eu sou a favor da UPP. Mas é uma pergunta que revela alguma coisa. E revela o quê? Revela que a polícia não tinha interesse na UPP. Nunca teve, está certo?

Se a polícia não tinha interesse na UPP e teve que vir de cima para baixo, faz você pensar: “Que polícia é essa?” Porque é essa polícia que está ocupando a favela. Está certo? Porque se você olhar com calma para a UPP, você vai ver o seguinte: Qual policial que a Polícia Militar coloca nas operações de UPP? Entra primeiro o BOPE, o traficante corre. Avisa na mídia que vai ter a invasão, o traficante corre. Porque está totalmente certo. Totalmente certo, na minha opinião. O traficante corre, a polícia entra. Aí quem fica lá na ocupação? Primeiro é o BOPE, que é uma polícia que não é corrompida igual à outra. Aí o BOPE sai, aí entram os aspirantes, os caras que acabaram de se formar na PM. Por que eles não mandam o policial antigo pra UPP? É uma pergunta que eu não preciso nem colocar a resposta.

Aí você faz uma conta: Quantos policiais novos a gente tem? Não têm muitos. Quantas favelas a gente tem? 1.700 Então a UPP é um projeto de longuíssimo prazo, não é um projeto instantâneo.

BN – O que é bom, né?

JP – É ótimo! Você tem que ir formando os policiais, novos, e colocando na UPP. Mas aí tem uma pergunta. O que acontece com o policial novo depois que ele fica velho? Porque ele é um policial que ganha o mesmo salário do policial antigo e que opera na mesma organização. O que a organização faz com o policial? Bom, esse é o tema do “Tropa de Elite I”, você já viu, né? Então é o seguinte: A UPP é meio projeto. É metade do projeto.

Ocupação territorial das áreas que estão com tráfico? Ótimo! Sou totalmente favorável. Agora cadê a outra metade? Porque a outra metade é a reforma da polícia. Se não tiver a outra metade a gente corre o risco de estar substituindo o tráfico por máfia. Máfia mata mais do que tráfico? Não, mata menos. Os números da violência vão cair.

Mas, máfia tem outros problemas. Quantas armas da milícia o BOPE já apreendeu? Zero. A polícia vira quase inútil para enfrentar a milícia, tá certo? Milícia é um nome brasileiro para máfia, no fundo é máfia. Então, o que eu estou falando? Cuidado! Faz a UPP? É claro que tem que fazer, mas cadê a reforma da polícia? Porque senão daqui a pouco a gente pode estar fazendo uma coisa ruim.

BN – Você tem vontade de fazer um terceiro filme abordando esses novos temas?

JP – Já fiz. Isso está no “Tropa II”. O que eu estou falando com você agora é um discussão que o “Tropa II”coloca.

BN – Tem UPP no “Tropa II” então?

JP – Não vou te contar o filme! (risos) Mas eu te digo o seguinte: Eu posso colocar essa discussão sem usar o nome UPP.

Olha só, eu ocupei uma favela, tirei os traficantes de lá. A favela mudou de nome? UPP é Unidade de Polícia Pacificadora. Quer dizer que a outra polícia que está nas outras favelas, que não é UPP, não é pacificadora? É o quê então?

Vou repetir, eu acho UPP um projeto maravilhoso. Uma coisa que a UPP mostra, na minha opinião, é que o tráfico tem um componente cultural. O tráfico tal qual ele existe no Rio de Janeiro. O tráfico que anda com AR-15 e dá tiro, tem um componente cultural. É um negócio que passa de geração em geração dentro da favela. O garoto lá… A criança nasce e quando tem problema familiar e uma série de motivos, vê aquele cara armado e “pô, o cara armado manda em todo mundo”. Tem um componente de reprodução cultural. Isso está demonstrado em quinhentas mil teses sociológicas… Desde a tese da Alba Zaluar …Pois é, tá demonstrado. Em suma, quando você coloca a UPP lá, se ficar por algum tempo, ela quebra a transmissão dessa cultura. Ela não acaba com o tráfico, mas o tráfico não fica violento. O que é muito melhor. Então a UPP é joia, é nota dez.

Por exemplo, no “Tropa de Elite II” não tem nenhuma crítica a UPP. Você não vai encontrar. Tem só um alerta: “Olha só, cadê a outra parte do projeto?” Porque se não botar a outra parte do projeto funcionando, o projeto tende a dar errado. E quanto tempo você tem para fazer a segunda parte do projeto? Você calcula. É fácil calcular. Quantas favelas você tem que ocupar, qual a ordem de ocupação, quantos policias novos por ano, quando é que vão acabar os policiais novos, tá certo? Quando é que os novos vão ficar velhos… Você calcula esse prazo. Eu acho que tem aí uns dois, três anos pra fazer isso, se não fizer vai começar e ter problema.

BN – E foi essa nova realidade que te inspirou a fazer o “Tropa II”? Foi isso que deu a coceirinha: “Tá na hora de fazer de novo.”?

JP – Foi. A gente conversou, assim. O “Tropa” é um filme de “patota”, vamos dizer assim, né? Para usar um termo velho, né? Então é uma coisa que eu fui conversando com o Wagner, com o Marcos, com o Bráulio, com o Dani Resende, com o Lula Carvalho, e tudo mais… “Pô, será que a gente faz esse filme? Tem um monte de gente que está falando pra gente fazer”.

Mas pô, a gente claramente só queria fazer se a gente achasse que era relevante fazer. E eu criei uma série de conexões com o mundo da Segurança Pública, através dos meus filmes. E a medida que eu ia conversando com o Wagner, e tal, eu ia também conversando com algumas pessoas que eu conhecia que estavam nesse mundo e que começaram a me falar esse tipo de coisa que eu tô te falando aqui. “Pô, olha só: UPP é legal, mas tem um problema aqui. Olha o que tá acontecendo com o Rio de Janeiro. Olha como foi a CPI das milícias. Dá uma olhada, porque a CPI das milícias prendeu os milicianos, mas não acabou com as milícias. A milícia fragmentou , mas ela continua.

O Marcelo Freixo, por exemplo, foi o cara que fez a CPI das milícias, né? O Marcelo Freixo não pode fazer campanha na Zona Oeste. Ele morre. Ele não pode. Já está avisado: “Se você fizer campanha aqui na Zona Oeste…”. As pessoas das favelas da Zona Oeste não podem ter um “santinho” do Marcelo Freixo. Isso é seriíssimo, não é brincadeira. A milícia tá aí.

BN – E qual foi a diferença do processo de filmagem do “Tropa I” e do “Tropa II”, no sentido em quê no primeiro o filme foi ganhar atenção com aquele caso do roubo das armas lá no Babilônia. Quando teve aquele “troço” que todo mundo pensou “ppa, tá fazendo um filme sobre isso?”. O pessoal do meio sabia, mas fora não sabia direito. Agora no “Tropa II” já muda tudo. Isso torna a coisa mais fácil ou mais difícil?

JP – Mais fácil, na média é mais fácil. No primeiro filme a gente só tinha feito documentários. Tava fazendo um projeto de, sei lá, 10 milhões de Reais. A gente nunca tinha feito um projeto de mais de 700 mil. Como que levanta esse dinheiro? É difícil. Depois a gente tinha feito o “Ônibus 174”, que é bastante agressivo com a polícia e com o governo Garotinho em particular. Então quando eu ia filmar o “Tropa de Elite I”, a Governadora era a Rosinha, então a gente não tinha acesso, não conseguia autorização, a polícia queria ler o roteiro… Uma coisa maluca, que deu um trabalho grande para conseguir. Se não fosse o Fernando Pelegrino, um amigo meu, explicar pro Governo Garotinho que não se pode censurar cinema, a gente não tinha conseguido. A gente conseguiu, mas deu muito trabalho.

No segundo filme foi muito mais fácil. As autorizações saíram rápido, ninguém pediu pra ver roteiro, a polícia colaborou para caramba. O atual comandante da PMERJ é uma pessoa honesta, séria. Ele ajudou a gente porque ele entendeu que é bom para a polícia haver crítica, então deixou a gente filmar dentro do 3º Batalhão, a gente filmou no Palácio do Governador, dentro do BOPE. Foi infinitamente mais fácil. E como o segundo filme não fala muito, fala um pouco, mas não fala muito, sobre tráfico, eu não filmei em favelas que estavam ocupadas pelo tráfico como eu fiz no primeiro filme. Você falou, no Babilônia, Prazeres, etc. Então, foi muito mais fácil.

BN – Você creditaria isso a uma mudança já de mentalidade ajudada pelo Tropa I”?

JP – Eu acho que sim. Com certeza. Foi mais fácil levantar dinheiro também.

O “Tropa de Elite I” não é inimigo da polícia ou do policial honesto. Não é. Por que seria? Tá dizendo “olha, policial não recebe dinheiro, a policia tá jogada as traças, isso gera corrupção dentro da polícia”. Para lidar com uma polícia tão corrupta, que não consegue operar direito, o Governo teve que fazer uma polícia, é… maluca.

Para você isolar o policial especial, o BOPE, da corrupção que campeia uma organização policial, você tem que aquartelar ele num lugar diferente. Você tem que doutrinar ele do jeito que ele é doutrinado, senão ele vai virar igual ao outro. Aí a polícia ao invés de acabar com o problema da corrupção, fez isso. Gerou um batalhão que tortura, mata, se considera superior aos outros, etc. que é o BOPE. O filme fala isso. Nada disso é bom. Então falar isso, alertar para isso é a favor da polícia. Ou será que a gente quer uma polícia corrompida e violenta? Não quer. Então algumas pessoas – e por sorte o Mário Sérgio, por exemplo – entendem isso dentro da polícia.

Não vou dizer que a polícia inteira concorda com isso. Não concorda, tanto assim que o “Tropa de Elite I” gerou um número enorme de ações na Justiça, de policiais. Os oficiais do BOPE processaram o filme, uma série de policiais convencionas processaram o filme e etc. A polícia como um todo, não concorda, mas essa chefia da polícia que está aqui, concorda hoje. Pode ser sorte. E também é mais fácil levantar dinheiro para o “Tropa de Elite II” do que para o “Tropa I”, porque já existia o “Tropa I”, né?

BN – E teve alguma coisa parecida com esse incidente das armas no Babilônia ou foi mais tranqüilo dessa vez?

JP – Foi muito mais tranqüilo. Ah, bom, teve algumas coisas, sempre tem. Por exemplo, a gente estava filmando uma cena na Zona Oeste, da execução de uma testemunha contra as milícias. A cena era essa. A gente tava lá, 2 da manhã, preparando pra rodar o 1º take quando chegaram 20 carros de polícia, pararam, encostaram… Só que eles não vieram na filmagem, eles viraram numa ruazinha perto, à direita e tal… Aí o cara da segurança da nossa filmagem foi ver o que era… Era uma execução da milícia. A milícia tinha executado um cara num botequim a dois metros da filmagem que a gente ia fazer, que era sobre o mesmo assunto. Quer dizer, a filmagem é no Rio de Janeiro. As coisas que acontecem no Rio de Janeiro

Olha só, não vamos imaginar que acabou a violência no Rio de Janeiro porque a gente fez dez UPPs. Quantos autos de resistência têm no Rio de Janeiro? Antes das UPPs, ainda na vigência do Sérgio Cabral, teve mais de mil autos de resistência. O que é um auto de resistência? É um policial que matou alguém que estava resistindo à prisão. Teoricamente. O policial declara que foi isso que aconteceu. A gente tem que entender que número é esse. Nos Estados Unidos a policia mata 200 pessoas por ano, em uma população de 300 milhões. No Rio de Janeiro, a polícia matou mil pessoas em um ano, numa população de 11 milhões, né? Não é brincadeira isso. Não vamos imaginar que a Segurança Pública está resolvida com a questão da UPP. Não está. É um passo ótimo para resolver, mas se não reformar a polícia, não vai resolver.

BN – E que filme você gostaria de fazer? Que realidade você gostaria que existisse para te inspirar a filmar?

JP – Problema social, meu amigo, vai existir. Existe desde o primeiro minuto da história da humanidade e vai existir sempre, tá certo? Eu não imagino e não acredito na Utopia, tá certo? Então, se o meu problema fosse “pô, eu só faço filme sobre problema social, o que eu faria se acabassem os problemas sociais? É isso que você está me perguntando? É uma pergunta meramente retórica, porque os problemas sociais não vão acabar, infelizmente.

Tem uma série de filmes que eu me interesso por fazer. Eu, por exemplo, fiz um filme agora que não fala diretamente de problema social. Fiz um documentário chamado “Segredos da Tribo”, que abriu no Sundance esse ano. Que fala sobre a filosofia da ciência, sobre epistemologia, sobre a incapacidade de um determinado grupo social – no caso os antropólogos – de produzir conhecimento confiável. E por que isso acontece, etc. Que é um outro assunto completamente diferente de segurança pública. Eu fiz um outro filme, que é o “Garapa”. Que é um outro documentário que teve em Berlin ano passado. Que fala sobre como uma família lida com falta de alimento. Eu faço uma série de filmes que não são sobre segurança pública, agora todos eles são sobre assuntos reais. Porque como eu te disse, a minha imaginação é curta.

BN – Agora, para fechar, uma pergunta pedida pela revista. Como o diretor vê no Brasil a questão de patrocínio através de leis de incentivo à cultura?

JP – Bom, eu acho que o cinema brasileiro, o teatro brasileiro e uma boa parte da música brasileira não existiria sem o incentivo à cultura. Isso é um fato, por vários motivos. De modo que, como eu gosto da cultura, eu gosto de ver show de música, eu gosto de ir ao teatro e gosto de ir ao cinema, eu sou a favor do incentivo.

Essa realidade da impossibilidade econômica de uma atividade – no caso a cultura – em determinado lugar, não é uma realidade única do Brasil. A cultura, o cinema, por exemplo, é incentivado na França, é incentivado na Inglaterra. Ele é incentivado no mundo inteiro, com exceção dos Estados Unidos e da Índia. O mundo inteiro, ou a maior parte dos países que têm cinema, têm cinema porque fez uma opção pelo incentivo fiscal. Eu sou favorável ao Brasil ter cinema. Acho que é importante para o Brasil ter cinema. Acho que o cinema faz mais do que gerar emprego. O cinema catalisa, ou pode catalisar, discussões importantes na sociedade. O cinema é entretenimento, que é importante. E o cinema exporta uma cultura, né? Cinema é mais do que parece. Eu acho importante o Brasil ter cinema. Acho que o Brasil não está pronto para ter cinema sem (a lei do) Audiovisual. Acho que não consegue fazer isso. Não é possível fazer isso. Então assim, a Lei do Audiovisual tem que continuar.

Qual é o modelo correto para o incentivo fiscal? Eu não acho que o modelo que está aí seja ruim. Pelo contrário, eu acho até que ele tem grandes méritos. Por exemplo, a ANCINE, que é a agência de cinema, avalia os projetos do ponto de vista orçamentário, do ponto de vista jurídico. Ela faz um trabalho que eu acho fundamental, que é analisar se o sujeito prestou contas. Se usou o incentivo fiscal direito ou não. Porque a gente tem aí na história do cinema brasileiro desvios nesse sentido. Ela empresta seriedade no processo. Então, isso é bacana. E ela não analisa o conteúdo do projeto. A ANCINE não reprova o projeto porque ele está falando A, ou B, ou C. O que é muito bom, muito bom! Porque o cineasta faz e se exprime da forma como ele quiser, né? O cinema brasileiro é verdadeiramente independente.

Eu vou a muitos festivais no mundo inteiro. Eu já participei de alguns painéis de festivais. Participei em um painel em Sundance sobre o cinema independente americano. Quando eu expliquei lá como é que funcionava o cinema brasileiro, felicidade geral. A felicidade das pessoas foi absurda, “Vocês são muito felizes, porque eu para fazer um documentário eu tenho que discutir com o canal que está financiando, eu tenho que fazer no modelo deles, eu não posso dizer isso, eu não posso dizer aquilo”. Ou seja, o Brasil tem um modelo muito para o cinema independente. Eu gosto.

Existem ajustes possíveis a serem feitos nesse modelo, para tornar ele melhor? Existem. É possível melhorar, mas é perigoso também mexer. Por exemplo, uma ideia do tipo: “Vamos concentrar o incentivo fiscal numa entidade pública e ela vai decidir que filme é feito?” eu acho péssimo. Eu prefiro que o empresário, que tem imposto a pagar, decida o filme a ser feito, do que, sei lá, a Embrafilme, entre-aspas, certo? Porque aí vira uma questão de a cultura que é feita é a cultura que o Estado decide que deve ser feita. O que é péssimo. Todas as sugestões que são feitas no sentido de melhorar o Audiovisual, que passem por um controle Estatal do conteúdo, para mim são piores do que agora.

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Tropa de Elite 3D

Arte de Fabio Lopez.

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É guerra?

Guerra no Rio de Janeiro
foto: jornal Extra

“Quando alguém usa o conceito de “guerra” para se referir ao que acontece no Rio, está na verdade se valendo de uma metáfora. Não há, no sentido literal do termo, uma guerra militar ou civil. Só se pode falar em “guerra civil” quando há objetivos políticos envolvidos, como por exemplo derrubar um regime, tomar o poder, fazer uma revolução. O que há são eventuais confrontos entre a polícia e facções rivais de marginais que exploram uma atividade ilegal e lucrativa. Mas as semelhanças com uma guerra são muitas, e é em função delas que nos acostumamos a pensar no problema da segurança pública carioca como se fosse uma guerra. Uma metáfora faz exatamente isto: ela nos leva a entender e experimentar um tipo de coisa nos termos de outra.”

O sociólogo Antonio Engelke levanta uma questão polêmica no texto “A Metáfora da Guerra”, publicado semana passada na sessão Opinião do jornal O Globo. Pra fazer par com as questões levantadas por Fabio Lopz no jogo “War In Rio”.

Comente

Entrevista – Fabio Lopez

O designer Fabio Lopez ficou conhecido em 2007, quando divulgou na internet uma de suas criações, uma polêmica adaptaçnao do jogo “War” chamada “War In Rio”, e viu seu nome aparecer em tudo quanto é jornal. São dele também os Pictogramas Cariocas Rio 2016 e a Batalha Na Vala.  

Nunca havia converado com o Fabio. Autor de dois dos cartazes do hexa do Flamengo publicados por aqui. Isso até “No Sapatinho We Can” (a já clássica versão do pôster de Shepar Fairey com  o técnico Andrade no lugar de Obama) ter parado na capa da Globo.com (que citou o URBe como fonte) e descobrirmos uma tonelada de amigos em comum.

Nesse papo informal por e-mail ele contou histórias dos bastidores da repercussão do “War In Rio”, assunto que ele costuma abordar em sua palestra “Minhas Idéias São Minhas Putas”.

O jogo não é novidade, porém o tema, infelizmente, continua atual. Além disso, é importante registrar o processo pelo qual o Fábio passou e a proporção que seu trabalho inesperadamente tomou. Pedi então pra publicar essa conversa e ele autorizou.

Como não foi uma entrevista propriamente dita, separei os assuntos em tópicos.

Reações ao “War in Rio”

Fábio Lopez – Ainda recebo e-mails de gente pedindo o tabuleiro ou perguntando onde encontra pra comprar. A maioria dessas mensagens ficou sem resposta, pela falta de tempo e porque eu acho que não entenderam exatamente a essência do projeto. Por outro lado, outros me contactaram elogiando a iniciativa ou contando histórias relacionadas à violência. Com essas eu troquei mensagens interessantes sobre segurança pública, sobre a função do design como instrumento de crítica social e outras iniciativas parecidas. Acompanhei opiniões em blogues e na própria página do projeto sem editar nada. Queria ver como as pessoas estava reagindo ao projeto.

A polícia e o “War in Rio”

Fábio Lopez – Teve um episódio com um soldado do BOPE que foi foda. Havia um parágrafo no texto do blogue em que eu me referia a PM e ao BOPE como ‘marginais do bem’. Então um sujeito escreveu dizendo que tinha se amarrado no projeto e tal, mas queria fazer uma observação muito séria. E começou a dizer em letras garrafais que ‘marginal do bem é o CARALHO’, que o BOPE se mete na lama pra enxugar gelo enquanto playboy que nem eu vai pra festinha fumar maconha, e encerrou assinando ‘CAVEIRA’ (!!!).

Como eu não sabia que merda ia dar aquilo tudo – isso rolou nas primeiras três horas de repercussão – fiquei bolado e removi o parágrafo, sem deixar de responder a mensagem do cara e questionar o tom dos comentários. Fiz isso também pra sacar se o cara era um combatente mesmo ou era apenas um maluco querendo dar uma escrotada.

A conversa por e-mail tomou um rumo mais civilizado, o cara passou a assinar o próprio nome e escreveu de maneira bem mais respeitosa. Eu também pude me colocar melhor em relação ao projeto e a gente seguiu trocando ideia: acabei entrando em contato com um personagem do tabuleiro a partir de um esbarrão completamente inesperado. Era um ‘caveira’ mesmo, um cara da minha idade, de classe média e mestrando que nem eu (na época), só que trabalhava no CORE combatendo marginais de 15 anos armados com fuzis de guerra e artilharia anti-aérea. Por que? Por que o cara acreditava que alguém precisava fazer isso pra barbárie não dominar a cidade do Rio de Janeiro, e aceitava o sacrifício para preservar uma sociedade na qual ele parecia estar cada vez mais desacreditado.

No momento em que me escreveu eu simbolizava pra ele um sujeito criativo, mas pertencente a raça de hipócritas pelos quais seus companheiros morriam gratuitamente (ele estava transtornado por ter perdido um parceiro alvejado num helicóptero na semana anterior). Depois viu que eu era um cara politizado, consciente e que estava usando o projeto pra discutir um assunto importante. Teve a hombridade de reconhecer o exagero, e desejou que eu continuasse, à minha maneira, lutando pelo que acreditava. Desejei o mesmo. Volta e meia releio aquelas mensagens e respiro fundo, refletindo sobre a brutalidade daquele cotidiano de guerra e sobre as palavras de apoio que trocamos.

Confesso que fiz bem em tirar esse trecho sobre as milícias, por que havia incluído as MILÍCIAS como ‘marginais do bem’ e umas três pessoas questionaram essa afirmação. Eu concordei com elas. É que na época havia pouca informação sobre a atividade marginal das milícias – que estourou junto com a violência nos dois anos seguintes. Por isso a ‘censura’ acabou servindo pra preservar o texto do projeto de um equívoco verdadeiro.

Responsabilidade surgidas com o projeto

Fábio Lopez – A ideia inicial do projeto era um questionamento social profundo? Não, não era. Mas a ideia era atingir as pessoas em cheio, e estava acontecendo. O projeto nasceu, cresceu e virou um monstro, e eu fui obrigado a assumir um papel diferente como autor. Não comercializar, não distribuir, não tratar como brincadeira o que era uma realidade escrota pra muitos – e a paródia acabou virando um manifesto de verdade.

Conhecendo o tabuleiro

Fábio Lopez – Outro episódio marcante foi quando apresentei o projeto numa mini-palestra na escola de artes visuais Kabum! Uma amiga trabalhava lá na época (Mariana Aurélio) e me chamou pra apresentar o projeto pros alunos. Porra, eu sabia que ela dava aula pra uma molecada vinda de comunidade carente, e achei que ela estava me desafiando. Algo do tipo: quero ver se tu tem coragem de trazer essa merda pra cá ou se tua parada é fazer piadinha pra televisão (o projeto mexeu muito comigo, e eu fiquei muito tocado pelas questões morais que envolvia). Então eu tinha que ir, ou seria um rato pra mim mesmo – mas foi foda.

Na Kabum! eles trabalham com garotos indicados por outros programas sociais (uma garotada que manda bem, se destaca e ganha a oportunidade de aprender mais) e com uma galera que eles chamam de borderlines, cuja participação simboliza a ultima chance de reintegrar meninos que estão a um passo da marginalidade. (Eu conhecia a escola, mas não conhecia esse detalhe). Então lá fui eu, com o desafio de apresentar um projeto que trazia representado no mapa a casa de quase todos ali.

A primeira reação dos meninos foi achar divertido encontrar o nome de suas comunidades no tabuleiro. Achei isso muito estranho: eu tava falando de guerra, mas eles ficaram felizes simplesmente por existir no mapa. Entendi o sentido humano da expressão ‘comunidade carente’, e tive alguma ideia do que é morar num lugar ignorado pelo Estado.

Então comecei a falar de design gráfico, de projetos pessoais, explicar porque eu tinha feito aquilo, quais os meus motivos, qual a minha revolta… Aos poucos eles foram baixando a guarda (não era um playboy zoando com a gente) e comecei a escutar as histórias deles também: de um BOPE que entra na favela metendo o pé na porta, de policial fazendo merda, de parente executado, de tiroteio na hora da escola… Viver no front é um inferno que a gente não faz ideia.

A turma sentava meio dividida, e levou mais tempo pra metade ‘borderline’ confiar em mim: ali ninguém tinha visto porra nenhuma na internet, não conhecia War, blogue e o escambau. Foi tenso, mas acho que no final eu consegui romper uma barreira social óbvia que nos separava, e acho que eles ganharam alguma coisa com as minhas palavras também.

Conversei com a Mariana, e ela disse que não tinha me chamado por desafio nenhum – e eu percebi que precisava descansar daquela história. Eu tava sendo consumido por todas as questões que o projeto arrastava: saí e tive vontade de tacar o jogo no canal do mangue, como se isso fosse resolver alguma coisa.

Os desafios morais

Fábio Lopez – A maioria das pessoas que lembra do “War in Rio” associa o projeto ao oba-oba, a fama repentina, e ao sucesso de um jogo que circulava loucamente pela internet. Mas as pessoas não tem muita ideia do quanto foi difícil manter a integridade moral diante de tanta merda que eu podia ter feito ou falado com aquele projeto debaixo do braço. Eu tive a sorte de ser escutado naquele momento e precisei assumir a responsabilidade de passar uma mensagem positiva: era isso ou ficar marcado pra sempre como ‘o babaca do War in Rio’.

Relação com a imprensa

Além dessas histórias, leve em consideração o caos pessoal de um dia estar em casa na encolha, e no dia seguinte estar sendo solicitado por todas as emissoras de TV aberta, seis jornais, revistas e etc.

Por sorte, na época, eu namorava uma menina que era do meio jornalístico, e ela sugeriu que eu me preparasse pra ser intensamente consumido pela notícia e logo depois descartado. Para que me preparasse psicologicamente pra esse abismo. A fama instantânea traz prestígio, mas isso some com a mesma rapidez. Ela também me orientou a tratar os jornalistas com educação e muita paciência, mesmo se fizessem as perguntas mais idiotas do mundo – e fizeram – pois no dia seguinte a palavra final é deles. Para tomar cuidado com tudo que eu dissesse, e mesmo assim eu vi entrevista editada e foto substituída pra moldar meu perfil de acordo com a repercussão do projeto.

Vi editor de jornal grande ir atrás das autoridades de segurança do Estado com o microfone na mão, pra captar opiniões absurdas em relação a notícia que eles haviam publicado. Acordei com a manchete ‘Autoridades abrem fogo contra War Tropa de Elite’ e tive medo. Um repórter da TV perguntou se eu queria algum efeito de distorção na minha cara: eu disse que não tinha feito nada de errado e não tinha porque me esconder. Mas nessa manhã eu achei que estava perdendo o controle da situação e desmarquei uma entrevista já dentro do carro da emissora. Percebi que a ideia da jornalista era fazer piada com a parada, e depois quem ia levar fumo era eu. Expliquei isso pra equipe e eles mudaram a pauta, na hora e literalmente nas coxas da repórter.

Ainda assim, me recusei a sorrir nas fotos e nas gravações com medo de virar alvo fácil de patrulheiros morais – a ponto da minha vó de 90 anos reclamar que eu estava sério demais, rs… Dei uma entrevista ao vivo pra uma rádio agachado embaixo de uma mesa na redação da RedeTV (por conta do barulho), e todas as perguntas diziam respeito apenas aos comentários do secretário de Segurança do Estado. Não dei entrevista em casa pra ninguém mostrar que eu não morava na favela, e tive que tomar cuidado pra ninguém me filmar ou fotografar com a carta ‘eliminar o Comando Vermelho da cidade do Rio de Janeiro’, por que minha mãe sonha um dia em ter netos, rs…

Recebi e-mail de apoio de gente que eu admirava pra caralho, e de gente que resolveu dar uma surfada na onda pra se promover com o jogo. Vi advogado conceituado escrevendo artigo sugerindo que eu processasse o secretário Beltrame por ter me acusado de estar fazendo apologia à violência, e também ouvi o Chefe da Polícia Civil dizendo que nunca tinha jogado War na vida. Dei entrevista ao jornal da Globo com uma camisa da Esdi, e recebi a ligação carinhosa do diretor da escola. :)

Resultados profissionais

Não ganhei um centavo direto com esse projeto: sabia das questões legais que isto envolveria e não quis assumir o passivo moral de vender um jogo que banalizava o problema da violência na cidade – isso era exatamente o que eu NÃO queria fazer. A outra questão é que eu jamais poderia imaginar o que estava por vir, e não tinha como estar preparado para o interesse comercial que o trabalho despertou. Era pra ser daquele jeito.

Profissionalmente o retorno foi bastante positivo. Com os colegas designers a repercussão foi bem mais duradoura e consistente, como se eu tivesse conquistado uma pontinha de admiração eterna – e isso é muito melhor que escutar um elogio desconhecido de qualquer autoridade.

Também tive medo de virar apenas o ‘cara do War In Rio’, mas depois aprendi a lidar com esse ‘fantasma’ positivamente. Tenho uma atuação profissional diversificada, e os colegas de profissão me conhecem por outros projetos (curso de tipografia, estampas, textos). Mas “War in Rio” é um patrimônio do qual eu também não tenho porque me envergonhar. Virou um cartão de visita interessante, e um tema divertido para palestras e rodas de bate-papo – apesar de eu sentir um pouco de vergonha pra falar do projeto (eu me empolgo, melhor desconversar).

O projeto hoje em dia é uma espécie de ponto turístico da internet e ainda recebe umas 2.000 visitas mensais e e-mails, mesmo eu não tendo postado nada no blog desde novembro de 2007. Em 2009 o jogo (objeto físico) participou de duas exposições em São Paulo: uma de design e uma de arte contemporânea.

Joguei “War in Rio” uma vez no fim de 2007 pra experimentar o tabuleiro, e vi que o mapa diferente atrapalha um pouco a dinâmica do jogo. Nas duas primeiras rodadas era curioso: ‘Três contra dois da Rocinha pro Vidigal’. Aí foi perdendo a graça, por que toda piada de mau gosto sempre desce um pouco atravessada. No final não foi divertido, e nunca mais usei o projeto.

“War in Rio” em números

• 70.000 acessos ao blog nos três primeiros dias de projeto – hoje a visitação total do projeto gira em torno de 160.000 visitantes;
• 2.200 mensagens eletrônicas (a maioria interessada na compra do projeto);
• Capa de cinco jornais de grande circulação: Extra (por 2 dias), Diário de São Paulo, Destak, Estado de São Paulo e Metro. Matéria interna em outros 3 grandes jornais: O Globo, Folha de São Paulo – caderno Folhateen e Jornal do Comércio (PE);
• Entrevistas concedidas a sete emissoras de televisão e duas de rádio: Globo (Jornal da Noite), Band Rio, RedeTV!, TV Record, GloboNews,TV Brasil (programa Recorte Cultural) e PlayTV (grupo Band); rádio Paradiso e Band FM;
• Publicado em 5 revistas: IstoÉ, Revista da Semana, Computer Arts, Jungle Drums (ING) e Tabu (jornal Sol – POR). Noticiado em versões digitais de outras cinco revistas: Cult, Trip, Galileu, Rolling Stones e Mac Magazine;
• Entrevistas concedidas para diversos jornais na internet: Globo, Folha, Extra e Estadão on line. Noticiado em portais de notícia: G1, MSN Notícias, iG, Yahoo e Terra Notícias, Agência AFP, Agência Estado e Observatório da Imprensa. Entrevistado pelo portal DesignBrasil.org.br;
• Apresentado na escola Kabum! de artes visuais;
• Noticiado em mais de 120 saites e blogs, como: Designers Justiceiros, Pedro Dória, Sydney Resende, São Paulo Fashion Week, Omelete, Nice to meet you (US), Banco Real, Computer Love, Coletivo Mobile, Design Gráfico e outros;
• Participação do projeto em dua exposições: 9ª Bienal de Design Gráfico da ADG 2009, e exposição “Outros Passatempos”, organizada pelo SESC da Vila Mariana em SP, março de 2009

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Linhares e sua turma

Qualquer semelhança com fatos recentes terá sido mera coincidência.

Como sempre, inédito ou em arquivo, Hermes & Renato na mosca.

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Que PORRA é essa?!?!

Câmeras flagram assassinato de, Evandro João da Silva, coordenador do AfroReggae e omissão de socorro por PMs:

Dois policiais. Que nojo. Não tem outra coisa pra se dizer de gente assim, é triste demais.

Isso arranha a imagem não só do Rio, mas do Brasil inteiro, muito, mas muito mais do que o caso do helicóptero da PM abatido a tiros por traficantes.

Dos bandidos não se espera outra coisa mesmo.

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Ladri di Biciclette

Versão anos 2000 do clássico italiano “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica.

Ladrão dá raiva, não há como negar. Porém espancamento também segue sendo crime, não custa lembrar.

Via @salim > BernaBauer

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Arrastão WIN?


foto: Fernando Quevedo/O Globo

A confusão se houve ou não houve um arrastão no túnel Zuzu Angel, quarta-feira, prossegue, diz o jornal O Globo:

O roubo de uma moto foi o que provocou pânico entre os motoristas que passavam pelo Túnel Zuzu Angel, na noite de quarta-feira. O crime ocorreu por volta das 21h, na mesma hora em que o túnel foi fechado por suspeita de arrastão. A vítima registrou a ocorrência logo depois na 16ª DP (Barra) e chegou a avisar sobre o roubo pelo 190 no percurso até a delegacia.

Nada, absolutamente nada é simples no Rio de Janeiro hoje em dia.

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Arrastão FAIL?


frame da reportagem da Globo.com

Horas depois do tumulto, a notícia: o arrastão no túnel Zuzu Angel nunca houve. Foi tudo um grande mal entendido.

A pergunta é: e faz diferença?

Lembra aquela velha questão: se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém está lá para ouvir, há barulho?

De certa maneira é ainda pior ver a que ponto a paranóia coletiva chegou.

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Arrastão no túnel Zuzu Angel e o Rio de quatro


foto tirada com celular, vídeo do caos a caminho

São 21h25 e há dez minutos vi uma cena que nunca vou esquecer: o Rio de Janeiro de quatro.

Estava voltando da produtora, em São Conrado, de carona com o Lins, quando notamos que o trânsito no sentido contrário, para Barra, estava interrompido. Entre as duas galerias do túnel Zuzu Angel, na parte a céu aberto, começamos a ver policiais a pé e carros abandonado pontuando a pista.

Os sinais eram claros, um arrastão tinha acabado de acontecer. Por questão de minutos — e muita sorte — não estávamos no local errado, na hora errada.

Dentro do túnel a cena era desoladora. Entre os carros abandonados, alguns de porta aberta, estilhaços de para-choques fruto das batidas de motoristas tentando fugir de ré. Com o túnel fechado, um engarrafamento gigantesco dá um nó na cidade nesse momento.

A sensação foi a de atravessar um set de filmagem de um desses filmes catástrofes, com a diferença de que era real. Em meio ao caos um funcionário da Cet-Rio anunciava que o túnel estava liberado e chamava os motoristas para retornar aos carros para que o trânsito possa voltar a fluir.

Na saída do túnel, os mostradores eletrônicos intercalavam informes do trânsito com a mensagem “Olimpíadas 2016. Rio, cidade candidata”.

É inacreditável a cegueira que toma conta desse lugar.

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Voador


O disco voador no Jornal Nacional

Depois de dar de cara com a foto de um helicóptero içando um cadáver após um  confronto em favela de Copa na capa do jornal, o sobrevôo do disco voador do artista plástico americano virou fichinha.


O Globo


O OVNI filmado de uma janela em Copa, com comentários e crítica
social feitos pelo autor do registro, dvd style

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Pirate Bay


foto: Jehad Nga/NYT

“Tudo que você precisa é de três caras e um barco pequeno e no dia seguinte vocês estão milionários”

Essa história dos piratas atuando na costa da Somália é tão surreal que assusta a falta de contextualização nas matérias que tem saído por aqui.

O NYT esclarece a questão, explicando que os piratas começaram a atuar como milícias, afugentando barcos de pesca comerciais que estavam varrendo o atum da costa do país sem pagar impostos após o desmoronamento do governo local.

Essa modalidade de assalto/sequestro não tem no Rio. Ainda.

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Adriano no Los Hermanos

Pela declaração dada na entrevista coletiva, Adriano deve abandonar o futebol para ingressar no Los Hermanos:

“Paro por tempo indeterminado, o que não quer dizer que seja definitivo”

Gracinhas a parte, o fato mais interessante desse caso do atacante é a declaração de amor feita a comunidade onde nasceu, Vila Cruzeiro, justo num momento em que as favelas tem dominado o noticiário carioca com a construção de muros e  propostas de remoçãoapoiada por 95% dos leitores que participaram da enquete no saite do jornal O Globo.

Duvide das soluções que parecem fáceis demais pra ser verdade. Elas costumam não ser.

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Em cima do muro


Santa Marta
foto: O Globo/Marcelo Carnaval

“Estado levanta muro no Dona Marta; na Zona Sul serão 11 mil metros de concreto”

“Favela à prova de balas: obras do PAC testam paredes de concreto e isopor que nem projéteis de fuzil atravessariam”

O milagre que torna medidas paliativas tão atraentes para os políticos é o fato de que as melhores costumam emplacar no imaginário popular exatamente pela sensação de solução imediata que oferecem, nem no entanto resolver coisa nenhuma.

E todos gostariam de soluções mágicas para grandes problemas. Só rindo mesmo… Resumindo um longo papo com o Antonio sobre esses assuntos, leia o texto do Elio Gaspari sobre a questão do muro.

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