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Arquivo: violência urbana

O Rio tem jeito (?)

Entrevista do José Junior, coordenador executivo do AfroReggae, feita para o blogue da Adidas. É sempre importante ouvir uma voz sensata em meio aos momentos tão turbulentos no Rio (e lá vem as críticas ao Junior por estar utilizando o boné da marca, etc.).

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No Rio tudo continua na paz

Recebi essas fotos de uma amiga. Foi assim que ela encontrou seu carro na terça de manhã em Copacabana, de onde ela saiu na segunda a noite de táxi, fugindo do tiroteio entre polícia e traficantes na ladeira dos Tabajaras.

Que cidade legal, que situação razoável você voltar para buscar seu carro, no dia seguinte a um gigante enxame de bezouro sem asas ter te expulsado do trabalho, e encontrá-lo crivado de balas.

Pior é ter que ficar alegre com a  “sorte” de não ter ninguém dentro.

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Na paz

Aqui no Rio? Tá tudo tranquilo.

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174 FAIL

Compre o DVD do filme “Última parada 174″ e ganhe uma viagem para o Rio!

Via Penkala.

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Batman voltou


“Entrevista do Ricardo Batman” (sem número)

Escangalhado, Chico Bala, Gaguinho, Seu Delson… Essa é a turma que Batman, líder do grupo de milícia Liga da Justiça, que comanda diversas comunidades da Zona Oeste do Rio, cita em uma série de depoimentos postados no YouTube.

Do nome do usuário (batmanvoltou) ao teor das declarações (repletas de contradições), tudo indica não se tratar de uma entrevista, mas sim de um comunicado de Batman, respondendo a perguntas que lhe interessam, interpretando os fatos que lhe convém.

Batman diz que a Liga é criação da imprensa, mas minutos depois responde a questões sobre a mesma Liga sem titubear, se vangloria de saber usar as armas que pegou do tráfico, e fala em recuperar “o que é seu”. Pra fechar, veja só, cobra agilidade da justiça antes de se entregar a polícia.

Sua principal fonte de renda vem da exploração das linhas de transporte alternativo. Fica cada vez mais difícil enxergar as vans (e suas bandalhas, desrespeito as regras de trânsico) como algo positivo.

O que necessário é coragem para organizar o transporte público, não fugir do problema fingindo oferecer uma alternativa a algo que deveria funcionar. Da maneira que funcionam (e como surgiram), as vans não passam de um remendo mal dado.

Lembro de quando estive na Bolívia, em 2000, e como fiquei impressionado com esse tipo de transporte, que até então não existia no Rio. A cena dos auxiliares pendurados na janela, berrando destinos era um caos que parecia distante.

Quanta ingenuidade, como se fôssemos nos aproximar do modelo de transporte europeu, não dos nossos vizinhos - hermanos em mais aspectos do que gostaríamos de admitir.

Batman não se considera um bandido.


“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 1


“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 2


“Entrevista do Ricardo Batman”, parte 3

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Que isso…


O trabalhador Luiz Carlos Franco: marmita roubada

“Bandidos fazem arrastão e roubam até marmita na Zona Norte

O trecho abaixo — assim como a imagem acima — não está na versão digital da reportagem do Globo (cujo saite anda cada vez pior, cheio de erros bobos, tomando banho até dentro de casa, da Globo.com):

“(…) até agora não localizaram a minha marmita. É frango com quiabo e macarrão. Só que o molho é de tomate e vai acabar estragando – reclamou o trabalhador que, até as 14h30 ainda não tinha feito qualquer refeição.”

Quanto espírito de porco… Lá vou eu repetindo a ladainha: cada um tem que fazer a sua parte e assumir suas responsabilidades ou esse lugar aqui não vai pra frente. De jeito nenhum.

Roubar? Gente humilde? MARMITA?!

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É de lei


Teaser do doc “Cidade do funk”, ainda em produção, de Sabrina Fidalgo
(o vídeo tem 4 minutos, apesar de estar marcando 9 no contador)

Os assuntos continuam a se misturar. Agora ocupada pela Polícia Militar, estão proibidos os bailes funk na Cidade de Deus.

Independente de qualquer ilegalidade que cerque esses bailes, mesmo os que são (eram?) oferecidos pelos traficantes, uma coisa é certa: a culpa não é da música.

Respondendo a um comentário no texto falando do projeto de lei que pretende definir o funk como “forma de manifestação cultural popular”, sugeri a leitura de um texto sobre a relação entre violência e funk que havia escrito em 2005, após uma visita ao baile da Formiga.

Como o assunto se torna outra vez relevante, republico o texto. Fica aqui um trecho e o link para quem quiser ler a íntegra:

Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.

O destino da noite era o morro da Formiga, para onde o “guia” DJ Marlboro levava um grupo de jornalistas para registrar um baile funk (eu e o fotógrafo Lucas Bori para uma revista, os outros da produção de um programa de TV). O objetivo das duas equipes era o mesmo: conseguir imagens de um baile de verdade, sem maquiagem. A galera que curte o som desde sempre, se divertindo à vontade. (clique para continuar lendo)

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Perigo


foto:Daniela Dacorso

“Seria o cúmulo da vergonha considerar um tipo de música tão vulgar e ridícula como forma de manifestação popular. É forma de manifestação do mau gosto. Isso sem falar que os bailes funk servem para ajudar a financiar o tráfico de drogas, coisa que todos sabem, com letras que fazem apologia à violência, ao crime e à prostituição” (grifo meu)

Como previsto, o projeto de lei do deputado Chico Alencar que define o funk como “forma de manifestação cultural popular” vai indignando a classe média, ao menos a parcela que vibra lendo colunas sobre gatos no Segundo Caderno — e sabe de tudo.

Violenta são essas generalizações, coisas que “todo mundo sabe”.

Não sei o que é pior, a necessidade de um canetaço para estabelecer algo óbvio ou gente esperneando, resistindo a lógica.

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Usuário

Agora essa: “O núcleo de novas tecnologias da Secretaria de Segurança do Rio estuda o uso de uma espécie de bafômetro para indicar o uso de drogas, que vem sendo chamado de ‘maconhômetro’.”

Caso venha realmente a ser utilizado, levantará a desgastada e polêmica discussão sobre a responsabilidade dos usuários de drogas pela violência urbana provocada pelo tráfico.

Para os que acreditam que esse é um caminho eficaz de encarar o problema, recomenda-se a leitura do resumo do blogue 30 Segundos, em cinco partes: 1, 2, 3, 4, e 5.

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“Santa Marta e o túnel escuro” (web)


URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”,
filmado com uma câmera fotográfica digital

doc e fotos: Bruno Natal

A notícia de que o tráfico havia sido expulso da comunidade pela polícia era tão boa que só vendo para crer. Aos pés do Santa Marta, o plano inicial sofreu uma pequena modificação.

A idéia era simplesmente chegar e subir as ladeiras, sem pedir autorização a ninguém, exatamente como se faz transitando entre bairros no asfalto da cidade.


Santa Marta

Dado o tamanho da novidade, não custava nada avaliar a situação falando com os policiais na viatura estacionada na subida da ladeira:

- E aí, é só meter o pé mesmo?

- Pode subir, tá na boa. Acabou de subir um monte de jornalistas com o comandante do 2o Batalhão, pelo bondinho.

- Então não tem bandido na área mesmo?

- Olha, subindo pelo bondinho tá tranquilo. Mas deve ter vagabundo escondido na mata ainda.


As iniciais do Comando Vermelho num muro: cicatrizes recentes

O bondinho é um plano inclinado que funciona como um elevador para os moradores da favela mais íngrime do Rio, onde vários repórteres aguardavam para ser levados ao topo do morro pela secretária de educação e pelo comandante da polícia.

A perspectiva de uma visita guiada oficial era desanimadora. Nada podia estar mais distante do objetivo original de simplesmente visitar a favela como quem vai a qualquer outro bairro da cidade. Sem falar na fila de mais de meia-hora pra subir no bondinho.

A grande revolução que pode ser promovida por uma comunidade sem tráfico é justamente possibilitar o encontro de duas realidades cada vez mais distantes.

O Rio de Janeiro precisa se tornar uma cidade só, sem separações, para se reerguer e reestruturar. O que isso pode trazer de bom é a livre circulação de pessoas e idéias.


Pierre Azevedo e dois de seus alunos de percussão

Decidi subir a pé e logo conheci o Pierre Azevedo, diretor da ONG Atitude Social. Baixista e ex-morador da comunidade, ele dá aulas de percussão para criançada na Casa de Cultura Dedé.

Tendo Pierre como guia (mas não uma escolta, pois realmente o morro estava calmo) para não me perder pelas vielas e chegar até o topo, rapidamente comecei a conversar com alguns moradores.

Por ingenuidade, não esperava o tipo de reação e as resposta que ouvi quando comecei a perguntar sobre as primeiras impressões da ocupação policial e a saída do tráfico.

Não ouvi ninguém reclamar da partida dos traficantes, porém a maior parte das pessoas, além da incredulidade, não acredita muito que isso irá durar. Mais do que isso, estão realmente incomodadas com o choque de regras.


Eletricidade no ar

Durante o passeio, ouvi diversas reclamações: que haverá horários para as coisas funcionarem e regras a serem seguidas, as bebedeiras agora vão ser vigiadas, que estouraram a central clandestina de tv a cabo, de que as novas casas e a urbanização impedem as criações de animais e hortas em chácaras…  E de como tudo isso altera o ambiente da comunidade como eles a conhecem.

É natural que seja assim. A experiência dessas pessoas com a presença do Estado é, em grande parte, negativa. Além disso, por mais paradoxal que possa soar, existe uma liberdade proporcionada pela ausência do Estado que é difícil de perder.

A frase de um morador, em resposta ao meu argumento de que as melhorias sociais e urbanísticas certamente viram acompanhadas de responsabilidades e deveres, resume bem a questão: “eu não fui criado assim”.

Esse é o ponto central de qualquer projeto que pretenda integrar as favelas ao resto da cidade. Coisa que parecem lógicas e normais no asfalto, são totalmente alienígenas na favela.

Assim como a noção de comunidade desses lugares dá um banho no resto da sociedade, onde vizinhos de porta num mesmo prédio mal se cumprimentam, o que dirá se ajudarem.


A meninada faz pose

Há, claro, também muita desconfiança em relação as reais intenções de um projeto desses.

Da maneira que são hoje, as favelas são em maior parte ocupações ilegais, sem escrituras. Portanto, mesmo algumas delas (as da Zona Sul) estando situadas em áreas nobres, a área não pode ser negociada.

Numa região sem mais um palmo de área livre pra construir, pode ser que estejam preparando o terreno para especulação imobiliária.

Estrutura-se o local e entrega-se as escrituras de posse, para depois deixar o poder aquisitivo falar mais alto, comprar essas propriedades e transformá-las em grandes (e caros) condomínios.

Não é nem um pouco improvável, o condomínio Selva de Pedra, no Leblon, surgiu de maneira até mais agressiva, através de incêndios.

O trabalho nessas comunidades é muito mais difícil do que parece e levanta discussões complexas. Expulsar o tráfico é só o início.

Como disse  José Mário, presidente da Associação de Moradores do Santa Marta, estamos entrando num túnel escuro, sem saber o que está do outro lado. Tomara que seja a luz.

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Santa Marta e o túnel escuro (vídeo)


URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”
doc e fotos: Bruno Natal

Devido aos problemas para subir o vídeo no YouTube e publicar junto com o texto, resolvi fazer um post separado só com o mini-doc “Santa Marta e o túnel escuro”, para os assinantes do RSS receberem o aviso.

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Tráfico zero


foto: Marcelo Piu / Agência O Globo

Apenas 13 dias após iniciar uma ocupação do Santa Marta, o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, declarou que todas as bocas-de-fumo estão fechadas e que o morro Dona Marta (nome relacionado ao tráfico e que a comunidade local não gosta). Repórteres do jornal O Globo visitaram a favela e realmente não viram traficantes.

Para quem não é do Rio, vale dizer que, apesar de não ser das maiores comunidades em termos numéricos, o Santa Marta fica em Botafogo, coração da Zona Sul, numa das áreas mais valorizadas da cidade e também ponto estratégico para o tráfico.

Se isso de fato está acontecendo (só acredito vendo e vou tentar dar um pulo por lá amanhã), é um marco para cidade. Mostra que é possível o Estado se fazer presente e alterar positivamente o cotididano das favelas.

Isso está sendo possível, diz-se, porque está sendo feita uma ocupação permanente do lugar, não apenas uma missão de combate. A única favela do Rio onde não há tráfico, há anos, é a Tavares Bastos, no Catete, no topo da qual fica a sede do Bope.

É claro que a escolha de favelas da Zona Sul (a próxima deve ser o Chapéu Mangueira, no Leme — não confundir com a Mangueira) para iniciar os projetos não é coincidência, visando aliviar tanto as comunidades quanto o asfato. Porém, há lógica nisso, visto que essas favelas são menores e menos intrincadas do que, por exemplo, as que formam o Complexo do Alemão.

Continuo acreditando mais em escolas no lugar de batalhões. Um dia a gente chega lá.

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Kelis Rogers, aquela do “Milkshake”, embolsou a grana e simplesmente deu um bolo no show que tinha marcado no Rio, alegando que não se sentia segura para sair do hotel. Foi para o aeroporto e deu adeus.

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Festa no apê

Pouco importa que ele seja um dos poucos sujeitos que possa transitar em favelas dominadas por qualquer facção: assaltaram o apartamento do DJ Marlboro.

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171?


“Última parada 174″

Estreiando no Festival do Rio 2008, o filme “Última parada 174″, de Bruno Barreto. A premissa do filme é de que a história de Sandro Nascimento, protagonista do sequestro do ônibus 174, em 2000, não foi contada.

Interessante. O único detalhe é que foi sim contada, em fatos reais, no documentário “Ônibus 174″.


“Ônibus 174″

Trata-se de um dos mais celebrados docs brasileiros, em casa e no exterior, vencedor desse mesmo Festival do Rio, onde também estreiou. Não é exatamente como se o assunto não tivesse repercutido.

Difícil entender a relevância de se contar essa história novamente. Será que, por se tratar de ficção, vai atingir um público maior? Ou pura exploração do tema da vez, violência urbana?

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Fuzil


foto: O Globo

A iniciativa é boa: banir os fuzis como armas de patrulha regular da cidade.

Esse ciclo de violência tem que acabar. Comprovadamente, quanto mais arma o Estado coloca na equação, pior fica, pois os bandidos também se equipam, numa escalada sem fim.

Bom pro asfalto, mas por enquanto, nada muda nas favelas. O secretário de segurança falou:

“Para operações em locais em que existem paióis de armas de grosso calibre e onde sabemos que existem bandidos armados com fuzis e até metralhadoras .30, logicamente que os policiais usarão o fuzil. Não posso determinar que o policial fique em desvantagem. Nas favelas, vamos de igual para igual”.

Dois pesos e duas medidas, o problema de sempre no Brasil. Sim, tem que se combater os traficantes, no entanto, colocado assim, soa como uma meia-solução.

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Alguma coisa está fora da ordem


foto: Custódio Coimbra/O Globo

A imagem acima ilustra o outdoor de divulgação do ato público em defesa da vida, que será realizado nesta quarta-feira no Rio, com o apoio do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedca).

A ilustração mostra um mãe com o filho ensaguentado nos braços, enquanto um policial observa, com um Caveirão do Bope ao fundo.

Não, ele não está lamentando junto com a mãe o assassinato do menino por bandidos. O sorriso um tanto sádico do soldado, tira qualquer possibilidade de ambiguidade da mensagem.

E de passeata em passeata, de “basta!” em “basta!”, não chegamos a lugar nenhum. Arregaçar as mangas ninguém quer, né, meus caros cariocas?

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Trabalho de formiga


foto: Lucas Bori

Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.

O destino da noite era o morro da Formiga, para onde o “guia” DJ Marlboro levava um grupo de jornalistas para registrar um baile funk (eu e o fotógrafo Lucas Bori para uma revista, os outros da produção de um programa de TV). O objetivo das duas equipes era o mesmo: conseguir imagens de um baile de verdade, sem maquiagem. A galera que curte o som desde sempre, se divertindo à vontade.

Subindo o morro, uma série de instruções tem que ser seguidas. Todas as janelas do veículo abertas, luz interior acesas e obedecer os comandos do motoqueiro que faz a escolta até o topo. Quase lá em cima, uma barricada de lixeiras filtra a passagem, sob o olhar vigilante de rapazes portando pistolas cromadas. É a chegada.

Fora da quadra de esportes onde acontece o baile, rapazes de 16 anos, andavam com fuzis quase do seu tamanho. Na tensão do momento, só dá pra pensar: “meu irmão, esse muleque não deve fazer muita idéia de como usar esse troço, sabe tanto quanto eu: aperta o gatilho, sai bala. Se der uma cagada aqui, a polícia chegar, uma briga, vai dar merda”. Dentro da quadra, tudo mais tranquilo. Provavelmente por conta da filmagem e das fotos, não tinha nenhuma arma.

O espaço estava vazio. Devido as recentes operações policiais na região, essa era a primeira festa em dias. Os que foram, dançaram, beberam, se divertiram e foram embora. Fora a quantidade de crianças de 6, 8 anos de idade circulando pelo lugar as 3h30 da manhã, não houve nada fora do normal. Nenhuma pancadaria, nenhum proibidão, nenhuma apologia.

Embora nenhuma das equipes estivesse interessada na simplista associação funk/tráfico, as armas estão lá, não tem como ignorar. Como se sabe, o Rio é uma cidade dividida. Em certas partes — em muitas partes — não se entra sem autorização dos “donos” do lugar.

Isso não é exclusividade dos bailes funk, qualquer atividade numa favela dominada pelo tráfico é assim, incluindo os serviços públicos como coleta de lixo, gás e, claro, policiamento.

É importante entender como o funk foi parar nesse ambiente, porque nem sempre foi assim. O grande erro do Estado foi a tentativa de proibição dos bailes no começo dos anos 90, no frenesi pós-arrastão televisionado do Arpoador, quando pela primeira vez o funk foi associado de maneira direta a baderna e atividades ilegais. Obviamente, não deu certo.

Expulsas dos clubes no asfalto, as festas foram se esconder nos morros. Da maneira que acontecem hoje, é impossível fiscalizar. Uma vez dentro das comunidades, não é o Estado quem manda. O esgoto escorrendo pela rua e a quantidade de lixo pelos cantos lembram isso a toda hora.

Os bailes são frequentados tanto por trabalhadores (a maioria) quanto por bandidos. A presença de traficantes não significa que a festa seja deles ou para eles. Eles ouvem funk, como todos misturados ali, e só. O negócio do tráfico é droga, não música.

Dizer que os bailes são festas de bandido é uma generalização burra e irresponsável. Existem os proibidões, funks de exaltação a facções criminosas, entretanto esses são minoria. De qualquer forma, mesmo nos lugares onde o tráfico financia as festas, o faz porque o Estado falhou aí também, ao não proporcionar lazer.

Tentar proibir o funk, como volta e meia é proposto, é combater o efeito, não a causa. É inútil. Ainda que conseguissem acabar com os bailes, outro tipo de música animaria as festas. Porque elas continuariam acontecendo e qualquer que fosse o gênero musical, as coisas seriam exatamente iguais. Não iria demorar muito, apareceria alguém propondo proibir a música nas comunidades.

O que acontece nos morros cariocas não é muito diferente do que acontece no gangsta rap americano, brasileiro ou mesmo com o danchehall jamaicano, como bem falou um amigo. No fundo, todos esse estilos são uma coisa só: música de gueto.

Olhando de longe, parece teatro, mas eles falam sobre a realidade violenta que os cerca. Dr. Dre falando que vai “bust a cap on your ass” ou Elephant Man gritando “Pow! Pow! Pow!” enquanto canta, não é diferente de um garoto falando sobre como as 4h da madrugada “tem que ter uma granada”.

A diferença é que o hip hop e dancehall já se “afaltalizaram” e se espalharam pelo mundo. Existe uma parcela grande de gente sem contato direto com realidades criminosas produzindo esse tipo de som.

A mesma coisa vai acontecer com o funk. Já está acontecendo, timidamente, em músicas como “Quem cagüetou” (Tejo, Black Alien e Speed) ou nas produções do Tetine, Lucas Santtana, Apavoramento, Nego Moçambique ou do americano Diplo e da singalesa MIA.

Enquanto a parede de caixas de som dispara graves atordoantes, fazendo, literalmente, tudo tremer (do chão ao cérebro), fica claro o quanto o trabalho de ponte feito pelo DJ Marlboro é importante. Aproximar morro e asfalto é algo fundamental, pois quanto mais afastados, piores os problemas.

Fechar os olhos, fingir que essas questões não existem, não resolve nada. Tem que ir lá, ver o tamanho da cagada que aprontaram pra gente e, quem sabe asim, tentar fazer alguma coisa pra ajudar a mudar. Porque, se não há justificativa para violência, certamente há explicação.

Quando se fala em ausência de Estado, não está se falando somente de polícia, muito menos do velho “sobe, prende e manda fechar”. O Estado falhou e continua falhando em questões sociais básicas, como educação e oportunidades. Foram essas faltas de condições que proporcionaram o ambiente perfeito para germinação do tal “poder paralelo”.

Agora, com um cenário desses, vem gente dizer que “o funk é violento”. É simplificar demais as coisas. Não são os bailes funk que são violentos. A favela que é.

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